Atlas da Mentira · checagem verificável

60 milhões vivem em áreas dominadas por facções onde Justiça e segurança estatal não chegam efetivamente

É enganoso afirmar, com base nas evidências disponíveis, que 60 milhões de brasileiros vivem em áreas controladas por facções no sentido forte descrito por Zema. Existe uma estimativa acadêmica de 50,6 milhões a 61,6 milhões de brasileiros vivendo com alguma forma de governança criminal, mas os próprios autores dizem que essa medida é mais ampla do que viver sob governança criminosa e não mede a intensidade do domínio. Em 2026, o Datafolha encontrou 68,7 milhões de adultos que percebiam facções ou milícias no bairro; entre eles, cerca de 42,2 milhões relataram interferência forte ou moderada nas regras de convivência.

O número de 60 milhões tem respaldo como ordem de grandeza de pessoas que convivem com alguma atividade de governança criminal, não como contagem de moradores de territórios em que o Estado foi amplamente substituído. No estudo acadêmico, tanto um pequeno grupo que proíbe roubos perto de um ponto de drogas quanto um grupo fortemente armado que governa de forma abrangente contam igualmente. Os autores também ressaltam que governança estatal e criminal frequentemente se sobrepõem. O contexto de Zema — “retomar territórios”, “não moram no Brasil” e ausência de justiça e segurança pública — transforma uma métrica ampla de prevalência em uma afirmação mais intensa que ela não demonstra.

Qualificações importantes

O estudo acadêmico estima para o Brasil prevalência de 26% de governança criminal e intervalo de 50,6 milhões a 61,6 milhões de pessoas vivendo com alguma forma desse fenômeno. Assim, 60 milhões está dentro da faixa para a métrica estudada.

Os autores distinguem explicitamente “living with criminal governance” de “living under criminal governance”. A medida usada para gerar a cifra brasileira é a primeira e é descrita como mais ampla.

  • Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates Living with versus living under criminal governance: A pesquisa codifica respostas sobre controle de roubos/melhoria da segurança ou imposição de ordem como 'living with CG' e afirma expressamente que esse estimando é mais amplo do que 'living under CG'.

O estudo não mede a intensidade do domínio. Um morador que relata uma regra limitada imposta por uma pequena gangue e outro que vive sob governo armado abrangente entram igualmente na categoria de prevalência.

A pesquisa acadêmica não pressupõe ausência do Estado: os autores afirmam que forças estatais normalmente conseguem entrar em áreas de governança criminal e que governança estatal e criminal costumam se sobrepor.

Pesquisa Datafolha/FBSP de 2026 encontrou 68,7 milhões de pessoas de 16 anos ou mais que percebiam facções ou milícias no bairro. Entre esse grupo, 42,2 milhões relataram interferência forte ou moderada nas regras de convivência. Presença percebida e interferência nas regras são métricas diferentes de controle territorial abrangente.

A estimativa acadêmica de 50,6 milhões a 61,6 milhões foi publicada em 2025, mas deriva de pesquisa do Latinobarómetro realizada em 2020; não é uma contagem direta de agosto de 2026.

O que foi checado

Cerca de 60 milhões de brasileiros vivem em áreas controladas por facções e outras organizações criminosas, em um quadro de domínio territorial no qual justiça, segurança pública e a autoridade formal do Estado não chegam efetivamente.

Forma
Paráfrase
Atribuição
Romeu Zema · Atribuição verificada
Função na época
candidato à Presidência
Data da declaração
06/08/2026
Contexto
Sabatina do g1 e GloboNews.

Como a proposição foi normalizada: A formulação preserva a intensidade do contexto completo. Zema não apresentou apenas a presença de grupos ou alguma regra local: falou em “retomar todos os territórios”, disse que 60 milhões “não moram no Brasil”, que vivem em áreas controladas por facções e que nessas áreas “não tem justiça”, “não tem segurança pública” e “quem arrecada é a bandidagem”.

Hoje, 60 milhões de brasileiros vivem em áreas que são controladas por essas facções e organizações criminosas.

Contexto original

Zema falou em domínio territorial forte

Hoje, 60 milhões de brasileiros vivem em áreas que são controladas por essas facções e organizações criminosas.

A frase apareceu enquanto Zema defendia “retomar todos os territórios”. Poucos minutos depois, ele reforçou o sentido: disse que 60 milhões de brasileiros “não moram no Brasil”, mas em áreas controladas pelo PCC, pelo Comando Vermelho e por outras facções, onde, segundo ele, não chegam justiça, segurança pública ou formalização e “quem arrecada é a bandidagem”. A afirmação, portanto, comunica mais do que presença criminal ou uma regra pontual no bairro.

Explicação

De onde vem uma cifra próxima de 60 milhões

O estudo “Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates”, publicado pela Cambridge University Press, estimou que 26% dos entrevistados no Brasil viviam com governança criminal. A Figura 1 converte essa prevalência em um intervalo de 50,6 milhões a 61,6 milhões de pessoas. O valor citado por Zema, portanto, coincide com a ordem de grandeza de uma estimativa acadêmica real.

Mas o que o estudo chama de governança criminal é mais amplo. O Latinobarómetro perguntou se havia grupos criminosos onde a pessoa vivia e, entre quem respondeu sim, quais atividades eles exerciam. Os autores classificaram como “living with criminal governance” quem relatou que esses grupos controlavam roubos, melhoravam a segurança, impunham ordem na área ou combinavam essas funções.

Contexto e limites

Viver com governança criminal não é o mesmo que viver sob domínio abrangente

Os próprios autores dizem que “living with” é uma estimativa mais ampla do que “living under” governança criminal. A pesquisa não perguntou se cada entrevistado estava pessoalmente sujeito a regras ou deveres impostos por grupos criminosos. Em uma validação feita na Colômbia, uma pergunta direta sobre submissão a regras e controles produziu taxa menor do que perguntas sobre atividades de governança.

  • Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates Living with versus living under criminal governance: A pesquisa codifica respostas sobre controle de roubos/melhoria da segurança ou imposição de ordem como 'living with CG' e afirma expressamente que esse estimando é mais amplo do que 'living under CG'.

O artigo também afirma que seus dados praticamente não medem a intensidade da governança. Para ilustrar, os autores explicam que um morador de bairro formal que relata uma pequena gangue proibindo roubos perto de um ponto de drogas, uma pessoa sob governo armado abrangente em uma área abandonada pelo Estado e alguém em local onde cartel e prefeito governam em conluio contam da mesma forma no indicador nacional.

Outra diferença relevante está na presença estatal. O estudo descreve governança estatal e criminal como frequentemente sobrepostas e afirma que forças do Estado normalmente conseguem entrar em áreas de governança criminal. Isso não sustenta, para todo o universo estimado, a descrição de territórios em que justiça e segurança pública simplesmente deixaram de chegar.

Explicação

Pesquisa de 2026 separa presença de influência nas regras

Em maio de 2026, pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública encontrou 41,2% da população com 16 anos ou mais — 68,7 milhões de pessoas — dizendo que havia facções ou milícias no bairro. Entre quem percebia essa presença, 61,4%, ou cerca de 42,2 milhões de pessoas, afirmou que o crime organizado interferia forte ou moderadamente nas regras de convivência.

Esse levantamento não resolve diretamente a afirmação de Zema, porque presença percebida e interferência nas regras não são equivalentes a domínio territorial completo. Ele, porém, mostra por que a escolha da métrica importa: uma pergunta ampla sobre presença alcança 68,7 milhões, enquanto a parcela associada a interferência forte ou moderada nas regras cai para 42,2 milhões.

Contexto e limites

A melhor defesa do número citado

A melhor defesa de Zema é que a exposição dos brasileiros ao poder local de organizações criminosas é, de fato, massiva. O estudo acadêmico coloca 60 milhões dentro de sua faixa de prevalência, considera o Brasil um caso de governança criminal excepcionalmente alta e observa que suas estimativas podem subestimar o fenômeno. A pesquisa de 2026 também registra presença de facções ou milícias perto da casa de dezenas de milhões de adultos. Essas evidências sustentam a ordem de grandeza de convivência com poder criminal, mas não convertem automaticamente esse universo em 60 milhões de pessoas sob controle territorial forte.

Método

Por que a afirmação é enganosa

O número de 60 milhões é plausível para uma métrica mais ampla: brasileiros que convivem com alguma forma de governança criminal. O problema é usar essa cifra como se medisse o quadro forte descrito na sabatina — territórios a serem “retomados”, pessoas que “não moram no Brasil” e áreas sem justiça ou segurança pública. A evidência quantitativa disponível não demonstra que todo o intervalo de 50,6 milhões a 61,6 milhões viva sob esse grau de controle. A fala preserva uma base numérica real, mas produz uma impressão mais intensa do que a medida sustenta.

Fontes

  1. Zema erra ao falar de investigados no Novo e omite contexto sobre pesquisas e Banco Master Documento

    Agência Lupa · 06/08/2026

    Contexto

    Contribuição: Contexto jornalístico secundário para localização da alegação; o finding não depende do rótulo da Lupa.

    • Fala sobre governança criminal: Trecho sobre 60 milhões de brasileiros.

    Limites: Fonte jornalística secundária; a conclusão se apoia na gravação original e nas pesquisas subjacentes.

    Disponível

    Abrir fonte

  2. ESPECIAL: Natuza Nery e Andréia Sadi entrevistam Romeu Zema Gravação

    O Assunto / g1 · 06/08/2026

    Alegação original

    Contribuição: Gravação original que estabelece tanto a cifra de 60 milhões quanto o sentido forte de território controlado, retomada de soberania e ausência de funções estatais.

    • Primeira menção aos 60 milhões: 1:11:03–1:12:49
    • Reiteração do sentido de controle territorial: 1:19:17–1:20:20

    Limites: Os tempos foram cotejados com transcrição automatizada para localização.

    Disponível

    Abrir fonte

  3. ESPECIAL: Natuza Nery e Andréia Sadi entrevistam Romeu Zema — transcrição Gravação

    Castnews · 06/08/2026

    Contexto

    Contribuição: Transcrição automatizada usada como apoio de localização e contexto da gravação original.

    • Trecho sobre territórios e 60 milhões: 1:11:03–1:12:49
    • Reiteração e soberania: 1:19:17–1:20:20

    Limites: Não substitui a gravação original.

    Disponível

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  4. Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates Documento

    Cambridge University Press / Perspectives on Politics · 12/08/2025

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Fonte quantitativa central e fonte decisiva para a distinção entre a prevalência ampla de alguma governança criminal e o domínio territorial forte comunicado na fala.

    • Figura 1 — Brasil: p. 129: Brasil com prevalência estimada de governança criminal de 0,26, presença de 0,73 e intervalo de 50,6–61,6 milhões de pessoas vivendo com governança criminal.
    • Living with versus living under criminal governance: A pesquisa codifica respostas sobre controle de roubos/melhoria da segurança ou imposição de ordem como 'living with CG' e afirma expressamente que esse estimando é mais amplo do que 'living under CG'.
    • National Estimates and Their Interpretation: O artigo diz que não mede a margem intensiva e exemplifica que regra limitada de pequena gangue e governo armado abrangente contam igualmente no indicador.
    • Introdução — sobreposição entre Estado e governança criminal: Os autores afirmam que forças estatais normalmente conseguem entrar em áreas de governança criminal e que governança estatal e criminal geralmente se sobrepõem.
    • Latinobarómetro 2020 e perguntas: O estudo usa a onda 2020 do Latinobarómetro, com perguntas sobre presença e atividades de grupos criminosos.
    • Country-Level Concerns — Brazil: Os autores discutem o Brasil como caso de alta prevalência, observam facções com atuação de governança e concluem que a posição fora da curva é provavelmente explicada por condições objetivas e menor subnotificação.

    Limites: A estimativa usa dados do Latinobarómetro de 2020 e não mede diretamente a intensidade, a submissão pessoal a regras ou o controle territorial exclusivo.

    Disponível

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  5. Pesquisa do FBSP aponta que 41,2% da população percebe presença do crime organizado no bairro onde mora Documento

    Fórum Brasileiro de Segurança Pública · 13/05/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Evidência contemporânea que separa uma métrica ampla de presença percebida de uma medida menor de interferência forte ou moderada nas regras locais.

    • Presença percebida no bairro: 41,2% da população com 16 anos ou mais, ou 68,7 milhões, afirma haver facções ou milícias no bairro.
    • Interferência nas regras de convivência: Entre os que percebem presença, 61,4%, cerca de 42,2 milhões, dizem que o crime organizado interfere forte ou moderadamente nas regras de convivência.

    Limites: Pesquisa com pessoas de 16 anos ou mais; mede percepção de presença e influência local, não controle territorial exclusivo ou substituição integral do Estado.

    Disponível

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Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

  • A cifra acadêmica usada na comparação deriva do Latinobarómetro de 2020 e não é uma contagem direta de agosto de 2026.
  • A checagem distingue deliberadamente 'viver com governança criminal' de 'viver sob controle territorial forte', porque o próprio estudo faz essa distinção.
  • A pesquisa Datafolha/FBSP de 2026 é corroboradora, mas suas métricas de presença percebida e interferência nas regras não são diretamente equivalentes ao indicador acadêmico.

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