Atlas da Mentira · checagem verificável

Leandro Almada esteve envolvido no depoimento do porteiro que ligou Bolsonaro ao caso Marielle

Enganoso.

É verdade que Leandro Almada era delegado da Polícia Federal em 2019 e que conduziu uma apuração relacionada ao caso Marielle. Mas essa investigação era outra: tratava de tentativas de obstrução e de uma falsa testemunha, e já havia sido conduzida meses antes do episódio do porteiro. Os dois depoimentos em que o funcionário do condomínio mencionou Jair Bolsonaro foram colhidos pela Delegacia de Homicídios da Polícia Civil do Rio, em outubro de 2019. O currículo oficial da PF situa Almada, naquele período, em função regional no Amazonas. O porteiro só foi ouvido pela PF depois, em novembro, em outro inquérito. Assim, usar a coincidência temporal e a atuação anterior de Almada no caso para sugerir responsabilidade dele pelo depoimento que citou Bolsonaro cria um nexo que as evidências não sustentam.

Qualificações importantes

Almada teve participação real em uma frente relacionada ao caso Marielle em 2019: presidiu uma investigação federal sobre tentativa de obstrução e sobre uma falsa testemunha usada para desviar a apuração. Isso torna a associação superficialmente plausível, mas essa frente era distinta do depoimento do porteiro e aparece em registros jornalísticos antes de outubro de 2019.

O porteiro foi ouvido posteriormente pela Polícia Federal e recuou da versão dada à Polícia Civil. A existência desse depoimento federal posterior não demonstra participação de Almada: as fontes acessíveis não o colocam na coleta desse testemunho, e seu currículo oficial registra sua atuação regional no Amazonas em 2019.

Tomada isoladamente, a frase de que o episódio ocorreu “no período em que Almada atuava na Polícia Federal” é literalmente verdadeira: ele era delegado federal. A classificação de enganoso se refere à impressão de responsabilidade criada pelo enquadramento de um vídeo sobre Almada, não à mera coincidência cronológica.

O que foi checado

Ao apresentar como uma revelação sobre Leandro Almada o fato de a acusação baseada no depoimento do porteiro ter surgido “no período em que [ele] atuava na Polícia Federal”, o vídeo de Mario Frias implica que Almada teve participação ou responsabilidade nesse depoimento que associou Jair Bolsonaro ao caso Marielle.

Forma
Implícita
Atribuição
Mario Frias · Atribuição verificada
Função na época
deputado federal e candidato à reeleição
Primeiro registro observado
09/09/2026
Contexto
Vídeo publicado por Mario Frias em suas redes sociais.

Como a proposição foi normalizada: Frias não diz literalmente que Almada colheu ou ordenou o depoimento. A implicação decorre do enquadramento do vídeo — apresentado como algo que “ninguém te contou sobre Leandro Almada” — e da justaposição do nome do delegado com o episódio do porteiro. A verificação, por isso, distingue a frase temporal literalmente verdadeira da responsabilidade causal sugerida.

Limite de atribuição: A postagem original não foi inspecionada diretamente; o vídeo e sua formulação foram preservados de forma contemporânea por UOL Confere e Aos Fatos.

Foi no período em que Leandro Almada atuava na Polícia Federal que surgiu uma das mentiras mais graves contra Jair Bolsonaro: a tentativa de associar seu nome ao assassinato de Marielle Franco por causa do depoimento de um porteiro.

Explicação

O depoimento que citou Bolsonaro foi colhido pela Polícia Civil

O Ministério Público do Rio registrou em 30 de outubro de 2019 que recebeu da Delegacia de Homicídios os depoimentos do porteiro e que os encaminhou ao STF por mencionarem o então presidente da República. Reportagem contemporânea do UOL detalha que o funcionário havia prestado duas declarações à Polícia Civil, em 7 e 9 de outubro, nas quais atribuiu a “seu Jair” a autorização para a entrada de Élcio Queiroz no condomínio Vivendas da Barra.

Explicação

Almada estava lotado no Amazonas

O currículo oficial de Leandro Almada na Polícia Federal registra que ele foi delegado regional de Combate ao Crime Organizado no Amazonas em 2018 e 2019 e delegado regional executivo da PF no Amazonas entre 2019 e 2020. Não há no registro institucional nem nas fontes contemporâneas examinadas indicação de que ele tenha colhido ou dirigido os depoimentos do porteiro à Polícia Civil do Rio.

Contexto original

A ligação verdadeira de Almada com o caso era outra

Almada não era alheio ao caso Marielle. Em 2019, ele presidiu um inquérito da PF sobre tentativas de atrapalhar a investigação, incluindo a atuação de uma falsa testemunha que havia acusado Orlando Curicica e Marcello Sicilliano. Uma reportagem de setembro daquele ano identifica Almada como responsável por essa apuração e registra que ele estava lotado no Amazonas. Essa investigação explica por que seu nome pode ser associado ao caso, mas não o conecta ao depoimento posterior do porteiro.

Explicação

A PF ouviu o porteiro depois

Em 19 de novembro de 2019, o porteiro foi ouvido em um inquérito da Polícia Federal e disse ter errado ao mencionar Bolsonaro, afirmando que ficou confuso durante os depoimentos anteriores à Polícia Civil. Essa etapa federal ocorreu depois que a versão original já havia sido divulgada e não transforma Almada no responsável pela declaração inicial.

Contexto e limites

Onde está a distorção

O vídeo combina três fatos verdadeiros — Almada era da PF, atuou em uma investigação ligada ao caso Marielle e o episódio do porteiro ocorreu em 2019 — para sugerir um quarto fato que não se sustenta: que ele teria responsabilidade pelo depoimento que associou Bolsonaro ao caso. Os registros separam essas frentes por órgão, objeto e cronologia. Por isso, a associação é enganosa.

Fontes

  1. Vídeo de Mario Frias sobre Leandro Almada e o caso Marielle Publicação

    Mario Frias

    Alegação original

    Contribuição: É o conteúdo original cuja implicação factual está sendo verificada; a análise usa preservações jornalísticas contemporâneas por falta de acesso direto.

    Limites: Sem acesso direto ao post, a checagem não afirma detalhes visuais ou falas além dos trechos preservados por fontes contemporâneas.

    Indisponível — A postagem original não foi acessada diretamente nesta apuração; sua formulação e enquadramento foram preservados por checagens contemporâneas do UOL Confere e Aos Fatos.

  2. Mario Frias engana ao ligar diretor da PF a depoimento no caso Marielle Documento

    UOL Confere · 10/09/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Preserva de forma contemporânea a formulação e o enquadramento necessários para avaliar a implicação atribuída ao vídeo.

    • O que está circulando: preserva o título da postagem e a fala de Frias que relaciona Almada temporalmente à acusação baseada no depoimento do porteiro

    Limites: É uma preservação jornalística do vídeo; a postagem original não foi inspecionada diretamente.

    Disponível

    Abrir fonte

  3. MPRJ esclarece detalhes da ação penal contra os executores dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes Documento

    Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro · 30/10/2019

    Evidência

    Contribuição: Fonte oficial que estabelece que as declarações originais do porteiro vieram da Delegacia de Homicídios da Polícia Civil do Rio.

    • Depoimentos do porteiro: MPRJ informa que recebeu da Delegacia de Homicídios os depoimentos do porteiro e os encaminhou ao STF em 10 de outubro de 2019

    Limites: A nota não identifica nominalmente todos os agentes que participaram das oitivas.

    Disponível

    Abrir fonte

  4. Currículo — Leandro Almada da Costa Documento

    Polícia Federal

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Estabelece a lotação e as funções institucionais de Almada no período dos depoimentos do porteiro.

    • Página 1: registra Almada como Delegado Regional de Combate ao Crime Organizado no Amazonas em 2018/2019 e Delegado Regional Executivo no Amazonas em 2019/2020

    Limites: O currículo mostra cargos e lotações, mas não lista individualmente cada diligência investigativa realizada pelo delegado.

    Disponível

    Abrir fonte

  5. Caso Marielle: À PF, porteiro diz que errou em anotação que cita Bolsonaro Documento

    UOL · 20/11/2019

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Fornece a cronologia contemporânea das duas oitivas à Polícia Civil e da posterior mudança de versão perante a Polícia Federal.

    • Depoimentos de outubro: informa que o porteiro deu depoimentos à Polícia Civil em 7 e 9 de outubro de 2019
    • Depoimento à PF: informa que em 19 de novembro o porteiro disse à PF ter errado ao atribuir a Bolsonaro a autorização e ter ficado confuso nos depoimentos à Polícia Civil
    • Inquérito federal: registra que a oitiva na PF ocorreu em inquérito aberto após pedido de Sergio Moro para apurar a citação a Bolsonaro

    Limites: Reportagem baseada em fontes e em inquérito sob sigilo; não reproduz a íntegra dos termos de depoimento.

    Disponível

    Abrir fonte

  6. Caso Marielle: Delegado montou uma 'central de mutretas' na Polícia Federal Documento

    UOL · 29/09/2019

    Contexto

    Contribuição: Demonstra a conexão verdadeira e anterior de Almada com uma frente distinta do caso Marielle, necessária para testar a interpretação mais favorável ao vídeo.

    • PF foi informada de atos de corrupção: identifica Leandro Almada como responsável pela investigação federal sobre obstrução no caso Marielle e registra sua lotação no Amazonas

    Limites: A matéria descreve um inquérito sigiloso a partir de seu relatório final e de versões das partes; não é o próprio inquérito integral.

    Disponível

    Abrir fonte

Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

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