Atlas da Mentira · checagem verificável

'Só aí tem R$ 61 bilhões' ao tratar de emendas impositivas e supersalários

Não é possível confirmar exatamente a que despesas Boulos atribuiu os R$ 61 bilhões. A cifra coincide com o total geral de emendas anunciado no Orçamento de 2026, mas apenas cerca de R$ 37,8 bilhões eram emendas impositivas. Como o ministro também citou supersalários na mesma frase, a leitura de um valor agregado é possível e não pode ser descartada.

O relatório orçamentário distingue R$ 49,9 bilhões em RP 6/7/8 e R$ 11,1 bilhões adicionais RP 2/3, compondo aproximadamente R$ 61 bilhões para emendas em geral. Para uma leitura conjunta, há estimativa de R$ 24,3 bilhões pagos acima do teto em 2025 no setor público inteiro, mas ela não é comparável diretamente à dotação federal de emendas de 2026; a aproximação aritmética de R$ 62,1 bilhões não confirma o método de Boulos. O entrevistado não explicou o referente de 'aí', o ano nem o cálculo.

Qualificações importantes

No original, o pronome 'aí' sucede tanto a proposta de reduzir supersalários quanto a de rever emendas impositivas. Não há indicação inequívoca de que os R$ 61 bilhões sejam apenas emendas ou a soma de ambas. A checagem não pode imputar ao entrevistado uma leitura exclusiva como se estivesse expressa.

O total de cerca de R$ 61 bilhões de emendas anunciado na aprovação do Orçamento de 2026 compreende R$ 49,9 bilhões de RP 6/7/8 mais R$ 11,1 bilhões de emendas adicionais RP 2/3 sob gestão dos ministérios. A parte impositiva (RP 6 e RP 7) era de cerca de R$ 37,8 bilhões. A diferença não deve ser genericamente atribuída a vetos ou remanejamentos.

A estimativa de R$ 24,3 bilhões pagos acima do teto em 2025 abrange diferentes esferas do setor público nacional, inclusive estados. Sua justaposição às emendas impositivas federais autorizadas para 2026 é apenas ilustrativa e não comprova a cifra exata nem economia federal possível.

Boulos não informou exercício de referência. O montante de emendas é da lei orçamentária de 2026; o valor de supersalários disponível no estudo citado é pagamento efetivo de 2025; o projeto para 2027 era apenas proposta. Valores aprovados, executados e pagos não são intercambiáveis.

A fala defende revisão de regras, mas não afirma que toda a cifra pudesse ser economizada imediatamente. Não se deve converter os R$ 61 bilhões em previsão de corte fiscal nem inferir intenção política com base apenas na imprecisão do referente.

O que foi checado

Ao defender o corte de supersalários e a revisão das emendas parlamentares impositivas, Guilherme Boulos afirmou que 'só aí' haveria R$ 61 bilhões envolvidos.

Forma
Paráfrase
Atribuição
Guilherme Boulos · Atribuição verificada
Função na época
Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República
Primeiro registro observado
31/10/2026
Contexto
Entrevista de Guilherme Boulos publicada pela Folha de S.Paulo em 31/10/2026, na resposta à pergunta sobre conciliar corte de gastos e promessas de campanha; trecho conferido em reprodução identificada como Folhapress no Jornal Página 3.

Como a proposição foi normalizada: A frase segue a referência imediata a reforma judiciária para conter supersalários e reforma política para rever emendas impositivas. 'Aí' pode apontar para as emendas isoladas ou para ambas as frentes. Não há exercício fiscal, denominação de medida (dotações versus pagamentos) ou cálculo indicados. A paráfrase conserva a ambiguidade; não atribui valor exclusivamente às emendas, nem promete economia imediata.

repensar a emenda parlamentar impositiva. Só aí tem R$ 61 bilhões.

Contexto original

O que Boulos disse

Na entrevista publicada pela Folha em 31 de outubro de 2026, Guilherme Boulos respondeu sobre cortes de gastos e promessas de campanha. Depois de citar cerca de R$ 600 bilhões por ano em desonerações, falou em reforma judiciária para reduzir supersalários e em reforma política para repensar emendas parlamentares impositivas, acrescentando: 'Só aí tem R$ 61 bilhões'. O demonstrativo 'aí' pode remeter tanto ao assunto mais próximo, as emendas, quanto às duas frentes sucessivamente mencionadas. Ele não indicou o exercício orçamentário, não apresentou uma memória de cálculo e não afirmou expressamente que todo o valor seria economia imediata.

Explicação

O que mostram os números de 2026

A interpretação que associa os R$ 61 bilhões a emendas encontra uma correspondência real: o Congresso anunciou esse montante como valor global de emendas no Orçamento de 2026. A notícia legislativa de 19 de dezembro de 2025 detalhou aproximadamente R$ 37,8 bilhões em emendas impositivas — R$ 26,6 bilhões individuais e R$ 11,2 bilhões de bancada — e R$ 12,1 bilhões em emendas de comissão, sem execução obrigatória. Portanto, R$ 61 bilhões não era o valor reservado apenas às emendas impositivas. Isso seria um erro numérico relevante se a fala pretendesse referir-se exclusivamente a essa modalidade.

A diferença entre o total global anunciado e as categorias com identificação própria fica clara no Relatório Geral do PLOA 2026. A Tabela 7 da página impressa 15 soma R$ 49,901 bilhões em emendas RP 6, RP 7 e RP 8. Logo abaixo, o documento acrescenta R$ 11,1 bilhões de parcelas RP 2 e RP 3, incorporadas às programações ministeriais sob gestão exclusiva do Poder Executivo. O conjunto aproxima-se de R$ 61 bilhões, sem necessidade de atribuir a diferença a vetos ou remanejamentos posteriores. A Nota Técnica Conjunta nº 3/2026 registra R$ 37,786 bilhões de dotações iniciais para RP 6 e RP 7 e R$ 12,115 bilhões para RP 8. Essas cifras descrevem categorias de orçamento, não valores pagos.

A leitura restrita — de que Boulos afirmava haver R$ 61 bilhões apenas em emendas impositivas — contrasta com a classificação oficial, de aproximadamente R$ 37,8 bilhões. Mas a entrevista também menciona, na mesma construção, os supersalários. Como a frase não define expressamente o antecedente de 'aí', a divergência entre total de emendas e parcela impositiva não basta, isoladamente, para classificar como enganoso um enunciado que também admite referência conjunta.

Explicação

A hipótese de um valor conjunto para emendas e supersalários

A leitura alternativa é que 'só aí' reuniu o tema das emendas e o dos supersalários, citados um após o outro. Como referência de ordem de grandeza, análise do FGV IBRE divulgada em agosto de 2026 apontou R$ 24,3 bilhões efetivamente pagos acima do teto constitucional em 2025 no conjunto do setor público brasileiro. O montante não se limita aos cofres da União: inclui gastos estaduais e diferentes carreiras, com cobertura e limitações próprias. Trata-se de pagamentos realizados, enquanto os R$ 37,8 bilhões das emendas impositivas de 2026 são dotações orçamentárias.

A mera soma aritmética das duas referências — R$ 37,8 bilhões de emendas impositivas federais previstas para 2026 e R$ 24,3 bilhões de pagamentos extrateto em 2025 nas diferentes esferas de governo — alcançaria R$ 62,1 bilhões, próximo da cifra dita por Boulos. Esse exercício serve apenas para demonstrar que a interpretação conjunta não é implausível: não é um cálculo válido de despesas federais equivalentes nem de espaço fiscal recuperável, pois combina anos, entes federativos e naturezas orçamentárias diferentes. Não há indicação de que Boulos tenha usado esse método.

A evidência produz duas leituras razoáveis, mas não resolve qual foi a pretendida. Se Boulos se referiu apenas às emendas impositivas, usou a cifra de uma categoria maior e a associação seria enganosa. Se se referiu conjuntamente às emendas e aos supersalários, não apresentou os recortes nem um cálculo compatível que permitisse confirmar exatamente R$ 61 bilhões. Nem a fala nem os registros examinados comprovam que o valor poderia ser eliminado por reforma ou que equivaleria a uma economia no caixa federal. Diante do referente e do método indefinidos, a conclusão numérica permanece inconclusiva.

Contexto e limites

O ano não citado e os limites da comparação

Se a referência pretendida fosse o exercício seguinte, o projeto orçamentário de 2027 enviado pelo Executivo previa R$ 44,8 bilhões de emendas impositivas: R$ 28,5 bilhões individuais e R$ 16,3 bilhões de bancada, conforme informação do Senado de setembro de 2026. Em 31 de outubro, o projeto ainda tramitava no Congresso, portanto não era um número definitivo para o orçamento aprovado de 2027.

A defesa de rediscutir emendas e supersalários não equivale a uma afirmação expressa de que o conjunto poderia ser eliminado ou transformado em economia fiscal imediata. O orçamento de emendas é uma autorização, não valor pago, e a obrigação de executar depende de critérios legais e técnicos. Os pagamentos extrateto estimados pelo FGV IBRE se distribuem entre União e estados e também não se convertem automaticamente em recursos disponíveis à União. Por isso, seria inadequado apresentar R$ 61 bilhões como economia federal assegurada.

Fontes

  1. Boulos fala em chantagem do mercado sobre ajuste fiscal e defende corte em desoneração e supersalário Entrevista

    Folha de S.Paulo · 31/10/2026

    Alegação original

    Contribuição: Entrevista original da Folha acessada diretamente nesta investigação, confirma a sequência textual 'supersalários', 'emenda parlamentar impositiva' e 'Só aí tem R$ 61 bilhões'.

    • Pergunta sobre ajuste fiscal: Resposta sobre reforma política, emendas parlamentares e R$ 61 bilhões

    Limites: A resposta impressa não esclarece a que tema ou soma remete 'aí', nem o ano e o método do número.; A entrevista comprova a fala, não o valor financeiro.

    Disponível

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  2. Boulos fala em chantagem do mercado sobre ajuste fiscal e defende corte em desoneração e supersalário Entrevista

    Folhapress, reproduzida pelo Jornal Página 3 · 31/10/2026

    Alegação original, Evidência

    Contribuição: Permite conferir a redação exata e o contexto imediato da fala atribuída a Boulos.

    • Pergunta 'Como conciliar a necessidade de cortar gastos...?' e resposta: Texto da entrevista reproduzida, resposta que aproxima emendas impositivas e cifra de R$ 61 bilhões

    Limites: Reprodução textual de entrevista publicada pela Folha; não constitui uma apuração independente da declaração.; Áudio ou vídeo original da resposta não foi localizado nesta checagem.

    Disponível

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  3. Orçamento 2026 é sancionado com previsão de superávit de R$ 34,2 bi Documento

    Agência Senado · 15/01/2026

    Evidência

    Contribuição: Documenta a origem da cifra global e a distinção explícita entre emendas impositivas e não impositivas para a LOA de 2026.

    • Emendas parlamentares: Total de cerca de R$ 61 bilhões, parcela impositiva R$ 37,8 bilhões, individuais R$ 26,6 bilhões, bancadas R$ 11,2 bilhões, comissão R$ 12,1 bilhões

    Limites: Notícia sobre a sanção em janeiro de 2026; não é demonstrativo de dotações atualizadas ou pagamentos de outubro.

    Disponível

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  4. Nota Técnica Conjunta nº 3/2026 — subsídios à apreciação do PLDO 2027 Documento

    Consultorias de Orçamentos do Senado Federal e da Câmara dos Deputados · 05/2026

    Evidência

    Contribuição: Registro técnico primário, com categorias orçamentárias RP 6, RP 7 e RP 8 e valores comparáveis para 2026, além dos limites jurídicos da execução obrigatória.

    • Tabela 11, página impressa 46: Valores de emendas impositivas e não impositivas em R$ milhões: dotação inicial 2026, RP 6+7 37.786,2; RP 8 12.115,3; total 49.901,5
    • Seção 9.2, páginas impressas 47 e seguintes: Explica que a execução obrigatória não tem caráter absoluto e depende de condições técnicas; sujeita a contingenciamento e bloqueio

    Limites: A Tabela 11 mostra dotação inicial e estimativas do PLDO 2027, não autorizações mutáveis nem pagamento até outubro de 2026.; A publicação é de maio de 2026.

    Disponível

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  5. Consultorias de Senado e Câmara lançam informativo sobre proposta orçamentária Documento

    Agência Senado · 08/09/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Oferece a melhor comparação contextual para a hipótese de a fala referir-se ao ano seguinte.

    • Emendas parlamentares de execução obrigatória: PLOA 2027: R$ 44,8 bilhões, R$ 28,5 bilhões individuais e R$ 16,3 bilhões de bancada

    Limites: Cifra de projeto, não de lei orçamentária aprovada.

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  6. Orçamento da União 2027 — tramitação do PLN 24/2026 Documento

    Congresso Nacional

    Contexto, Evidência

    Contribuição: Estabelece que a proposta para 2027 ainda não tinha valor definitivo aprovado na data da fala.

    • Tramitação do Projeto de Lei Orçamentária: Em andamento; apresentação e análise de emendas não iniciadas, sanção não iniciada, conforme página consultada em 01/11/2026

    Limites: Página dinâmica; sua situação muda com a tramitação legislativa.

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  7. Relatório Geral sobre o PL nº 15/2025-CN (PLOA 2026), Volume I Documento

    Congresso Nacional — Comissão Mista de Orçamento · 18/12/2025

    Evidência

    Contribuição: Documento orçamentário primário identifica na página 15 do relatório R$ 49,901 bilhões em emendas RP 6, 7 e 8 e R$ 11,1 bilhões adicionais em RP 2 e 3, estes sob gestão exclusiva do Executivo.

    • Tabela 7, página impressa 15 (página PDF 21): Tabela de atendimento das emendas com identificadores RP 6, 7 e 8, total R$ 49.901.486.761. Inspecionada visualmente na página 20, índice zero, do PDF.
    • Parágrafo abaixo da Tabela 7, página impressa 15: Adicionais RP 2 e RP 3 no valor de R$ 11,1 bilhões, exclusivamente sob gestão do Poder Executivo.

    Limites: Refere-se ao relatório de aprovação orçamentária de dezembro de 2025, não a pagamentos realizados em outubro de 2026.; Somatórios arredondados e detalhamento contábil devem ser separados dos efeitos de vetos, créditos e alterações posteriores.

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  8. Congresso aprova Orçamento de R$ 6,5 trilhões para 2026 Documento

    Agência Senado e Agência Câmara · 19/12/2025

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Notícia legislativa contemporânea explica a composição de aproximadamente R$ 61 bilhões em emendas: R$ 49,9 bilhões em categorias próprias e R$ 11,1 bilhões incorporados às programações dos ministérios; só R$ 37,8 bilhões são impositivos.

    • Seção Emendas: R$ 61 bilhões = R$ 49,9 bilhões em individuais e coletivas + R$ 11,1 bilhões na programação dos ministérios; RP 6 e 7 impositivas somam R$ 37,8 bilhões.
    • Categorias impositivas e de comissão: Emendas individuais R$ 26,6 bilhões; bancadas R$ 11,2 bilhões; comissão R$ 12,1 bilhões, estas últimas não impositivas.

    Limites: Retrata valores na aprovação congressual do orçamento, não desembolsos executados em outubro de 2026.

    Disponível

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  9. Um caminho para solucionar o problema dos supersalários do setor público Fonte

    FGV IBRE — Luiz Guilherme Schymura · 10/08/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Análise econômica publicada antes da entrevista, com estimativa de R$ 24,3 bilhões efetivamente pagos acima do teto em 2025 no conjunto dos governos do Brasil e sua distribuição federal e estadual.

    • Abertura: valores suprateto em 2025: Primeiros parágrafos: R$ 24,3 bilhões pagos além do teto em 2025, 67,3 mil servidores no conjunto do setor público.
    • Parcela de estados nos gastos extrateto: Parágrafo sobre R$ 12 bilhões a R$ 13 bilhões em gastos extrateto estaduais de carreiras jurídicas analisadas em 2025.

    Limites: Soma gastos de diferentes esferas governamentais, não apenas dotação do Orçamento federal.; Mede pagamentos extrateto em 2025, diferentemente das dotações orçamentárias de emendas aprovadas para 2026.; Cobre conjuntos de carreiras e amostras com limitações geográficas detalhadas no texto; não representa necessariamente economia fiscal automaticamente recuperável.

    Disponível

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Publicação responsável: Atlas da Mentira.

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