Atlas da Mentira · checagem verificável

Cada queda de um ponto na Selic abriria R$ 90 bilhões de espaço no Orçamento

A fala mistura uma economia real de juros com um espaço orçamentário que não surge automaticamente e superestima o efeito indicado pelo Banco Central.

Na última estimativa disponível quando Flávio falou, o Banco Central calculava que uma redução de 1 ponto percentual na Selic, mantida por doze meses, diminuiria a Dívida Líquida do Setor Público em R$ 66,1 bilhões e a Dívida Bruta do Governo Geral em R$ 60,6 bilhões — abaixo dos R$ 90 bilhões citados. Além disso, esses números medem a sensibilidade de agregados da dívida, não uma autorização para elevar despesas primárias. Pela regra fiscal, juros são despesa financeira e o limite de gasto incide sobre despesas primárias; uma queda dos juros melhora o resultado nominal e a trajetória da dívida, mas não converte automaticamente a diferença em verba livre para novas políticas.

Qualificações importantes

A elasticidade da dívida à Selic não é um valor fixo. Ela depende do estoque e da composição do endividamento e é atualizada pelo Banco Central. Na nota seguinte à entrevista, com dados de julho, os impactos passaram para R$ 68,9 bilhões na DLSP e R$ 63,3 bilhões na DBGG, ainda abaixo de R$ 90 bilhões.

Juros e encargos da dívida fazem parte do Orçamento, mas são classificados separadamente como despesa financeira. A redução desse custo pode aliviar o financiamento do Estado e a dívida, porém não aumenta, na mesma proporção e de forma automática, o limite legal para despesas primárias.

O cálculo do Banco Central supõe uma variação de 1 ponto percentual da Selic mantida por doze meses. Ele não significa que todo o efeito apareça imediatamente no caixa nem que toda a dívida seja refinanciada de uma vez à nova taxa.

O que foi checado

Cada redução de um ponto percentual na Selic abriria cerca de R$ 90 bilhões de espaço no Orçamento federal.

Forma
Paráfrase
Atribuição
Flávio Bolsonaro · Atribuição verificada
Função na época
candidato à Presidência
Data da declaração
28/08/2026
Contexto
Entrevista ao Jornal Nacional.

Cada 1% de taxa de juro a menos que nós pagamos, é cerca de R$ 90 bilhões que abre do Orçamento.

Explicação

O número oficial era menor

Em 28 de agosto de 2026, a estimativa oficial mais recente era a nota de Estatísticas Fiscais divulgada pelo Banco Central em 31 de julho. A tabela de elasticidades calculava que uma redução de 1 ponto percentual da Selic, mantida por doze meses, reduziria a DLSP em R$ 66,1 bilhões e a DBGG em R$ 60,6 bilhões. Os dois valores são materialmente inferiores aos cerca de R$ 90 bilhões citados por Flávio.

A atualização seguinte, publicada três dias depois da entrevista e referente a julho de 2026, elevou as sensibilidades para R$ 68,9 bilhões na DLSP e R$ 63,3 bilhões na DBGG. A mudança entre um mês e outro mostra que não existe um coeficiente permanente de R$ 90 bilhões por ponto de Selic.

Explicação

Menos juros não significam a mesma quantia livre para gastar

Há um segundo problema na frase: o impacto calculado pelo Banco Central é sobre a dívida pública, enquanto Flávio apresentou o valor como dinheiro que 'abre dentro do Orçamento' e disse que usaria esse recurso para atender a população. A LDO de 2026 classifica juros e encargos da dívida como um grupo próprio e distingue despesas financeiras, identificadas como RP 0, das despesas primárias.

O regime fiscal da União estabelece limites para dotações de despesas primárias e vincula o crescimento real desses limites à inflação e à evolução da receita primária. Portanto, uma redução do custo financeiro da dívida pode melhorar o resultado nominal e reduzir o endividamento, mas não cria automaticamente um espaço equivalente para aumentar despesas primárias como benefícios, custeio ou investimentos.

Contexto original

O que Flávio disse

Na entrevista ao Jornal Nacional, Flávio argumentava que não precisaria economizar sobre o salário mínimo nem sobre aposentadorias. Disse que sua eleição faria a Selic cair já na reunião seguinte do Copom e afirmou que cada ponto de juros a menos abriria cerca de R$ 90 bilhões no Orçamento, recurso que seria usado para 'tratar quem precisa' e 'estender a mão' à população.

Contexto e limites

O que há de correto na ideia

A relação geral apontada por Flávio é real: juros mais baixos reduzem, mantidas as demais condições, o custo de parcelas da dívida expostas à Selic e melhoram a trajetória do endividamento. O próprio Banco Central calcula esse efeito todos os meses. O problema está em transformar uma sensibilidade da dívida em um valor fixo de R$ 90 bilhões e, sobretudo, em apresentá-la como verba que fica automaticamente disponível para novas despesas no Orçamento.

Fontes

  1. No JN, Flávio erra sobre 'Dark Horse' e nega aquecimento global Documento

    UOL Confere · 29/08/2026

    Alegação original

    Contribuição: Preserva a declaração atribuída a Flávio e a checagem contemporânea que remete à estimativa do Banco Central disponível à época.

    • Fala sobre taxa de juros e Orçamento: trecho que reproduz a afirmação de que cada ponto de juros a menos abriria cerca de R$ 90 bilhões no Orçamento

    Limites: A classificação editorial do UOL não é adotada como evidência do finding; a conclusão desta checagem se apoia nos dados oficiais e nas regras orçamentárias.

    Disponível

    Abrir fonte

  2. Leia a íntegra das perguntas da Globo e as respostas de Flávio Documento

    Poder360 · 29/08/2026

    Contexto

    Contribuição: Preserva o contexto que dá sentido a 'abre dentro do Orçamento': Flávio apresentou a suposta economia como recurso para financiar outras ações do governo.

    • Resposta sobre salário mínimo, aposentadorias e Selic: transcrição do trecho em que Flávio associa os R$ 90 bilhões a recursos que usaria para atender a população

    Limites: É uma transcrição jornalística da entrevista, não o arquivo audiovisual original.

    Disponível

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  3. Estatísticas Fiscais — Nota para a Imprensa de 31 de julho de 2026 Documento

    Banco Central do Brasil · 31/07/2026

    Evidência

    Contribuição: Fornece a estimativa oficial mais recente disponível na data da fala para o impacto de uma redução de 1 ponto percentual da Selic sobre os principais agregados de dívida.

    • Elasticidades da DLSP e DBGG: p. 4 do PDF: redução de 1 p.p. na Selic implica -R$ 66,1 bilhões na DLSP e -R$ 60,6 bilhões na DBGG; nota informa variação mantida por doze meses

    Limites: A tabela mede elasticidades da DLSP e da DBGG, não espaço de despesa primária no Orçamento federal.; A estimativa é condicionada à variação da Selic ser mantida por doze meses e muda conforme estoque e composição da dívida.

    Disponível

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  4. Estatísticas Fiscais — Nota para a Imprensa de 31 de agosto de 2026 Documento

    Banco Central do Brasil · 31/08/2026

    Contexto

    Contribuição: Atualiza a mesma métrica após a entrevista e confirma que o parâmetro varia no tempo e continuava abaixo de R$ 90 bilhões.

    • Elasticidades da DLSP e DBGG: p. 3 do PDF: redução de 1 p.p. na Selic implica -R$ 68,9 bilhões na DLSP e -R$ 63,3 bilhões na DBGG; variação mantida por doze meses

    Limites: Foi publicada depois da declaração e, por isso, não é usada para estabelecer o que era publicamente conhecido em 28 de agosto.; Também mede dívida, não autorização orçamentária para novas despesas.

    Disponível

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  5. Lei nº 15.321, de 31 de dezembro de 2025 — Diretrizes Orçamentárias para 2026 Documento

    Presidência da República · 31/12/2025

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Demonstra que juros da dívida e despesas primárias ocupam categorias fiscais distintas no orçamento de 2026.

    • Art. 7º, §§ 2º a 5º: classifica juros e encargos da dívida no GND 2 e distingue despesas financeiras (RP 0) das despesas primárias

    Limites: A lei não quantifica o efeito de uma mudança da Selic; esse efeito é medido pela fonte do Banco Central.

    Disponível

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  6. Lei Complementar nº 200, de 30 de agosto de 2023 Documento

    Presidência da República · 30/08/2023

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Mostra que o espaço legal para despesa primária não é ampliado automaticamente pela redução da despesa financeira com juros.

    • Art. 3º: estabelece limites individualizados para o montante global das dotações orçamentárias relativas a despesas primárias
    • Arts. 4º e 5º: define a correção do limite de despesa primária pela inflação e o crescimento real ligado à variação da receita primária

    Limites: A lei disciplina limites e metas fiscais; não estima diretamente a economia de juros decorrente da Selic.

    Disponível

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Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

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