Atlas da Mentira · checagem verificável

Procura por atendimento no SUS por compulsão em jogos aumentou mais de 200% entre 2018 e 2026

Não é possível confirmar, com os dados oficiais publicamente identificados, que a procura por atendimento no SUS ligada à compulsão em jogos tenha crescido mais de 200% entre 2018 e 2026.

A divulgação oficial atribui o número a Alexandre Padilha, mas não apresenta valores de referência, série histórica de 2026, método de cálculo nem definição de 'procura'. Outros documentos oficiais relatam altas de 104% até maio de 2025 e de aproximadamente 140% entre 2018 e 2025. Esses percentuais têm períodos distintos e, sozinhos, nem comprovam nem invalidam o número para 2026.

Qualificações importantes

Uma variação até maio de 2025, ou até o fim de 2025, não invalida por si só uma variação até 2026: a ausência de dados comparáveis para o período completo impede escolher entre os percentuais.

Os registros de atendimentos não equivalem ao número de pessoas que procuraram o SUS: uma pessoa pode ter vários atendimentos, e diagnósticos de jogos podem estar subnotificados.

Os códigos de jogo patológico e mania de jogo e aposta abrangem problemas relacionados a jogos em geral; os dados citados não permitem isolar atendimentos causados especificamente por bets online.

A atribuição foi confirmada por relatos textual e institucional da audiência, mas a gravação integral e os slides originais do ministro não foram cotejados nesta verificação.

O que foi checado

Entre 2018 e 2026, a procura por atendimento no Sistema Único de Saúde devido à compulsão em jogos aumentou mais de 200%.

Forma
Paráfrase
Atribuição
Alexandre Padilha · Atribuição verificada
Função na época
Ministro da Saúde
Data da declaração
03/11/2026
Contexto
Apresentação de dados em audiência pública do STF sobre proibição das apostas on-line.

Como a proposição foi normalizada: Informação atribuída ao ministro da Saúde Alexandre Padilha em divulgação oficial da audiência do STF. A publicação não explicita a série, indicador operacional nem se abrange apenas apostas online; esses limites devem ser preservados no fact-check.

Contexto original

O que Padilha afirmou

Na audiência pública de 3 de novembro de 2026 no Supremo Tribunal Federal, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, defendeu a proibição de apostas online. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência divulgou, como dado apresentado por ele, que a procura por atendimento no SUS devido à compulsão em jogos havia aumentado mais de 200% entre 2018 e 2026. A Agência Brasil relatou alta de 200%. O número é tratado aqui como paráfrase atribuída ao ministro, não como citação literal de uma gravação.

Explicação

O que os dados oficiais permitem conferir

O Guia de Cuidado publicado pelo Ministério da Saúde em 2026 informa 10.553 atendimentos no SUS classificados como jogo patológico (CID-10 F63.0) ou mania de jogo e aposta (Z72.6) entre janeiro de 2018 e maio de 2025. Desse total acumulado, 4.316 foram ambulatoriais e 6.237 da atenção primária. Para esse intervalo, o guia registra crescimento de 104%. O documento não apresenta, nessa passagem, os valores de partida e chegada usados na variação, nem dados correspondentes a 2026.

No próprio dia 3 de novembro de 2026, texto do Conselho Nacional de Saúde, com informações do Ministério da Saúde, afirmou crescimento de aproximadamente 140% nos atendimentos relacionados a jogo patológico e apostas entre 2018 e 2025. O mesmo texto menciona uma projeção de aumento adicional de 104% até 2028, que não deve ser confundida com uma alta já observada. Nenhuma das duas taxas traz, na divulgação, uma tabela que permita reproduzir a conta.

O cenário mais favorável à afirmação é que o ministro tenha utilizado uma atualização ainda não publicada para algum período de 2026, ou um universo mais abrangente de registros. Isso é possível e a existência de séries anteriores com crescimento reforça a plausibilidade de aumento da demanda. Porém, a divulgação dos 'mais de 200%' não identifica os numeradores, denominadores, datas de corte e critérios de inclusão. Sem esses elementos, não é possível confirmar se o novo percentual mede a mesma grandeza dos relatórios anteriores.

Contexto e limites

Procura, atendimento e pessoas não são sinônimos

Um levantamento do Tribunal de Contas da União baseado no sistema ambulatorial do SUS descreveu crescimento de registros de jogo patológico, mas advertiu que número de atendimentos não é número de pacientes: a mesma pessoa pode ser atendida várias vezes. A auditoria também apontou lacunas nos indicadores específicos de impacto das apostas online. Sua série ambulatorial tem cobertura diferente da soma de atenção primária e ambulatório divulgada posteriormente pelo Ministério da Saúde, portanto não foi usada como prova da variação de 200%.

A própria Nota Técnica nº 4/2025 do Ministério da Saúde alerta para subnotificação de problemas com apostas, que frequentemente aparecem associados a outros transtornos mentais. Os códigos F63.0 e Z72.6 também não separam, por si, a modalidade online de outros jogos. Assim, crescimento de atendimentos codificados, procura por serviço e número de pessoas com transtorno de jogo são indicadores diferentes; os 30 mil usuários que teriam demandado teleatendimento, mencionados na divulgação da audiência, tampouco substituem uma série comparável desde 2018.

Método

O que falta para fechar a conta

Para verificar a taxa anunciada, é necessária a planilha ou extração oficial com valores comparáveis de 2018 e 2026, datas de corte, serviços incluídos (atenção primária, ambulatorial, teleatendimento), códigos diagnósticos, regra de deduplicação e fórmula da variação percentual. Os documentos examinados sustentam a ocorrência de aumento em períodos anteriores, mas não demonstram precisamente o índice superior a 200% declarado para 2026. Por isso o resultado permanece não comprovado, sem afirmar que a alta seja falsa.

Fontes

  1. Em audiência no STF, Governo Federal defende proibição de jogos de aposta online Documento

    Agência Gov / Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República · 03/11/2026

    Alegação original

    Contribuição: Fonte oficial decisiva para documentar a atribuição ao ministro e o conteúdo comunicado; não fornece os valores da série nem permite calcular o percentual.

    • DADOS: Parágrafo: Entre 2018 e 2026, a procura pelo atendimento no SUS ... aumentou mais de 200%

    Limites: Texto de divulgação institucional, não planilha, microdados ou apresentação integral.; A fala audiovisual integral não foi cotejada; atribuição de frase como paráfrase, não transcrição literal.

    Disponível

    Abrir fonte

  2. Padilha defende proibição das bets e cita impacto no SUS Documento

    Agência Brasil / EBC · 03/11/2026

    Alegação original, Contexto

    Contribuição: Corrobora que o percentual foi apresentado na audiência, mas não oferece os números brutos usados.

    • Dados: Durante a audiência, o ministro apresentou dados que mostram aumento de 200% na procura de atendimento no SUS

    Limites: Reportagem descritiva, sem série histórica ou identificação operacional do indicador.; Menção a 200% sem a qualificação 'mais de' da divulgação da Secom.

    Disponível

    Abrir fonte

  3. Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas (1ª edição, 2026) Documento

    Ministério da Saúde · 2026

    Evidência

    Contribuição: Documento técnico oficial fornece histórico parcial, codificações e percentual de 104% até maio de 2025; não fornece série de 2026.

    • Página 9, Contextualização: 9: 10.553 atendimentos F63.0 e Z72.6, 2018–maio/2025; crescimento de 104%; 4.316 ambulatoriais e 6.237 APS

    Limites: Percentual diz respeito a período diferente do alegado e não refuta isoladamente atualização posterior.; Os 10.553 são atendimentos acumulados, não contagem de indivíduos únicos, nem valores dos dois extremos da variação.

    Disponível

    Abrir fonte

  4. Volta das Bets é um perigo para a saúde pública Documento

    Conselho Nacional de Saúde · 03/11/2026

    Evidência

    Contribuição: Mostra que, na própria data da declaração, outro comunicado governamental atribuído ao Ministério da Saúde apresentou 140% para 2018–2025, sem planilha de cálculo.

    • Demanda pelo SUS: Parágrafo: 2018–2025, atendimentos cresceram cerca de 140%; projeção de mais 104% até 2028

    Limites: Texto do Conselho é comunicação institucional com informações do Ministério da Saúde, não base estatística auditável.; O fim do período difere de 2026 e o percentual projetado até 2028 não pode ser tratado como realizado.

    Disponível

    Abrir fonte

  5. TC 024.852/2024-4 — Levantamento sobre jogos de apostas online e saúde mental Documento

    Tribunal de Contas da União

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Auditoria independente contextualiza a diferença entre atendimentos e pessoas e a insuficiência de indicadores específicos; série distinta não comprova o 200%.

    • Páginas 22–23, itens 119–122 e figura 2: SIA, código F63; atendimentos não são pessoas distintas; série observada até 2023 e projeções para 2024–2028
    • Página 21, item 109: Lacunas em indicadores específicos para mensurar impacto das apostas online

    Limites: Indicador ambulatorial F63 e período de extração em 31/10/2024 diferem da abrangência F63.0 mais Z72.6 e de atenção primária em outros documentos.; Valores de 2024 a 2028 na figura são apresentados como previsão; não foram tratados como registros observados.

    Disponível

    Abrir fonte

  6. Nota Técnica nº 4/2025 — Recomendações à RAPS sobre jogos de aposta Documento

    Ministério da Saúde · 2025

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Explica os códigos e a subnotificação por casos registrados sob outros transtornos; reforça que procura, incidência e atendimentos codificados são grandezas diferentes.

    • Página 5, seção 3: Subnotificação e 10.553 atendimentos F63.0 / Z72.6 de janeiro de 2018 a maio de 2025

    Limites: Não informa percentuais comparáveis para 2026.; Compartilha a mesma base administrativa citada no Guia de Cuidado; não constitui replicação independente do total.

    Disponível

    Abrir fonte

Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

Metodologia e significado dos achados · Solicitar correção

Encontrou um erro?

Indique o ponto que precisa ser revisto e, se possível, a evidência que sustenta a solicitação. O envio fica privado até análise.

Aponte o trecho, dado ou conclusão que você acredita estar incorreto ou incompleto.

Se possível, inclua links, documentos ou referências que sustentem a solicitação.

Não será publicado. Podemos usá-lo apenas se precisarmos esclarecer esta solicitação.