Atlas da Mentira · checagem verificável
Quase 70% dos brasileiros vivem sob domínio de facções
Falso. Há uma pesquisa acadêmica com dados de 2020 em que cerca de 73% dos brasileiros relataram a presença de grupos criminosos onde viviam, mas o mesmo estudo estimou governança criminal — grupos exercendo funções como impor ordem ou regular a segurança local — em cerca de 26%. Na pesquisa nacional FBSP/Datafolha de 2026, 41,2% percebiam facções, milícias ou outros grupos criminosos organizados no bairro; entre esse subgrupo, 61,4% diziam haver influência forte ou moderada sobre decisões e regras locais, cerca de 42,2 milhões de pessoas.
A cifra perto de 70% encontra apoio apenas para uma medida mais ampla de presença criminal em um levantamento de 2020. Ela não sustenta a expressão “sob domínio”. As fontes que distinguem presença de governo ou influência sobre regras locais apontam uma dimensão muito menor.
Qualificações importantes
Os 41,2% do FBSP/Datafolha medem a percepção dos entrevistados sobre a presença de grupos criminosos organizados no bairro; não são um mapeamento direto de território controlado.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Presença percebida: p. 40-41: 41,2% reconhecem presença; o relatório projeta cerca de 68,7 milhões de pessoas.
“Domínio” é mais forte que simples presença. Entre os entrevistados do FBSP/Datafolha que reconheciam esses grupos no bairro, 61,4% disseram que eles influenciavam muito ou moderadamente decisões e regras locais, cerca de 42,2 milhões de pessoas. Esse 61,4% não tem como denominador toda a população brasileira.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Presença percebida: p. 40-41: 41,2% reconhecem presença; o relatório projeta cerca de 68,7 milhões de pessoas.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Influência nas regras locais: p. 43-44: 34,9% dizem que os grupos influenciam muito e 26,5% moderadamente entre quem reconhece presença; somados, 61,4% desse subgrupo, ou cerca de 42,2 milhões de pessoas.
A pesquisa de 2026 perguntou conjuntamente por grupos criminosos organizados ligados ao tráfico ou a milícias; portanto, seus resultados não permitem atribuir todo o contingente apenas a facções.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Pergunta sobre presença de crime organizado: p. 40-41: pergunta sobre grupos criminosos organizados envolvidos com tráfico de drogas ou milícias no bairro de moradia.
O estudo Cambridge com Latinobarómetro de 2020 é a principal evidência favorável à cifra: estima cerca de 73% de presença criminal no Brasil. Mas o próprio estudo separa essa medida de governança criminal, estimada em cerca de 26%, e ressalta que até sua medida de governança captura “viver com” essas atividades, não necessariamente estar pessoalmente submetido às regras de grupos criminosos.
- Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates The 2020 Latinobarómetro Survey Instrument: A pesquisa pergunta primeiro por presença de crime organizado, grupos armados, narcogrupos ou gangues onde a pessoa vive. Entre quem responde sim, pergunta por atividades como controlar roubos/melhorar segurança e impor ordem. Os autores codificam essas atividades como governança criminal e alertam que o estimando é mais amplo que estar pessoalmente “sob” regras impostas pelo grupo.
- Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates Figure 1 — Estimated National Prevalence of Criminal Governance and Presence: Figura 1, p. 129 da edição de março de 2026: Brasil com cerca de 26% de governança criminal e 73% de presença criminal; os autores apresentam as medidas como distintas e discutem limitações de interpretação.
Quase 70% dos brasileiros vivem sob o domínio das facções.
- Forma
- Declaração literal
- Atribuição
- Flávio Bolsonaro · Atribuição verificada
- Função na época
- candidato à Presidência
- Data da declaração
- 01/09/2026
- Contexto
- Programa de propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro na televisão.
Limite de atribuição: A frase foi preservada em reportagem contemporânea do UOL sobre o horário eleitoral; a gravação integral do bloco não foi localizada em fonte acessível nesta apuração.
Quase 70% dos brasileiros vivem sob o domínio das facções.
- Em alta nas pesquisas, Cury critica polarização no horário eleitoral na TV Programa de Flávio Bolsonaro: Trecho em que o UOL registra a afirmação “Quase 70% dos brasileiros vivem sob o domínio das facções”.
Explicação
O dado de 2026 mede presença, não domínio
No horário eleitoral de 1º de setembro, o programa de Flávio Bolsonaro afirmou que “quase 70% dos brasileiros vivem sob o domínio das facções”. A reportagem contemporânea do UOL registrou a frase no bloco dedicado ao candidato.
- Em alta nas pesquisas, Cury critica polarização no horário eleitoral na TV Programa de Flávio Bolsonaro: Trecho em que o UOL registra a afirmação “Quase 70% dos brasileiros vivem sob o domínio das facções”.
O principal levantamento nacional disponível antes da propaganda foi encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ao Datafolha. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas de 16 anos ou mais em 137 municípios, em 9 e 10 de março de 2026, com margem de erro de dois pontos percentuais. Nela, 41,2% disseram perceber grupos criminosos organizados ligados ao tráfico ou a milícias atuando no bairro onde moravam. O relatório projetou esse percentual como cerca de 68,7 milhões de pessoas.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Metodologia: p. 11 do relatório: 2.004 entrevistas, 137 municípios, população de 16 anos ou mais, campo em 9 e 10 de março de 2026 e margem de erro de 2 pontos percentuais.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Presença percebida: p. 40-41: 41,2% reconhecem presença; o relatório projeta cerca de 68,7 milhões de pessoas.
Esse dado não permite dizer que 41,2% estejam “sob domínio”. O próprio relatório alerta que a presença percebida pode ir de grupos locais menores a contextos de controle territorial armado. Por isso, presença e poder sobre a vida cotidiana precisam ser analisados separadamente.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Presença percebida: p. 40-41: 41,2% reconhecem presença; o relatório projeta cerca de 68,7 milhões de pessoas.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Cautela na interpretação da presença: p. 43: o relatório diz que a percepção de presença pode abranger desde grupos locais menores até facções ou milícias com controle territorial armado e imposição de regras, portanto a intensidade não pode ser inferida apenas do “sim” à presença.
Explicação
Quando a pergunta se aproxima de poder sobre regras locais, o alcance é menor
Entre os entrevistados que reconheciam a presença desses grupos no bairro, 34,9% disseram que eles influenciavam muito as decisões e regras de convivência e 26,5% responderam que influenciavam moderadamente. Somadas, as duas respostas dão 61,4% desse subgrupo, ou cerca de 42,2 milhões de pessoas. O percentual de 61,4% não vale para todos os brasileiros.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Presença percebida: p. 40-41: 41,2% reconhecem presença; o relatório projeta cerca de 68,7 milhões de pessoas.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Influência nas regras locais: p. 43-44: 34,9% dizem que os grupos influenciam muito e 26,5% moderadamente entre quem reconhece presença; somados, 61,4% desse subgrupo, ou cerca de 42,2 milhões de pessoas.
Mesmo essa medida não é um mapeamento direto de “domínio territorial”. Ela capta percepção de influência sobre decisões e regras do bairro. Ainda assim, é uma aproximação mais pertinente ao sentido de poder local do que a simples pergunta sobre presença.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Cautela na interpretação da presença: p. 43: o relatório diz que a percepção de presença pode abranger desde grupos locais menores até facções ou milícias com controle territorial armado e imposição de regras, portanto a intensidade não pode ser inferida apenas do “sim” à presença.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Influência nas regras locais: p. 43-44: 34,9% dizem que os grupos influenciam muito e 26,5% moderadamente entre quem reconhece presença; somados, 61,4% desse subgrupo, ou cerca de 42,2 milhões de pessoas.
Contexto e limites
A principal defesa da cifra de 70% é uma medida antiga de presença criminal
Um estudo publicado pela Cambridge University Press, com dados do Latinobarómetro de 2020, oferece a evidência mais favorável à cifra. Na figura nacional do estudo, o Brasil aparece com cerca de 73% de presença criminal, a maior taxa entre os 18 países analisados. Mas a mesma fonte estima em cerca de 26% a governança criminal no país. O questionário primeiro perguntava se havia crime organizado, grupos armados, narcogrupos ou gangues onde o entrevistado vivia; depois, entre quem respondia sim, perguntava se esses grupos controlavam roubos, melhoravam a segurança ou impunham ordem. Os autores tratam essa segunda medida como “viver com” governança criminal e dizem que ela é mais ampla do que estar pessoalmente “sob” regras impostas por esses grupos.
- Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates The 2020 Latinobarómetro Survey Instrument: A pesquisa pergunta primeiro por presença de crime organizado, grupos armados, narcogrupos ou gangues onde a pessoa vive. Entre quem responde sim, pergunta por atividades como controlar roubos/melhorar segurança e impor ordem. Os autores codificam essas atividades como governança criminal e alertam que o estimando é mais amplo que estar pessoalmente “sob” regras impostas pelo grupo.
- Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates Figure 1 — Estimated National Prevalence of Criminal Governance and Presence: Figura 1, p. 129 da edição de março de 2026: Brasil com cerca de 26% de governança criminal e 73% de presença criminal; os autores apresentam as medidas como distintas e discutem limitações de interpretação.
Método
O que os dados permitem concluir
As pesquisas confirmam uma presença extensa do crime organizado e influência relevante sobre a vida local de milhões de brasileiros. Também mostram por que “presença” não pode ser convertida automaticamente em “domínio”. A estimativa de 73% do estudo com dados de 2020 se refere à presença criminal; sua medida de governança fica em 26%. Já o levantamento de 2026 encontra 41,2% de presença e cerca de 42,2 milhões de pessoas, dentro desse subgrupo, relatando influência forte ou moderada sobre regras locais. Os instrumentos e os anos são diferentes e não formam uma série comparável, mas nenhum deles sustenta que quase 70% dos brasileiros estejam sob domínio de facções.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Presença percebida: p. 40-41: 41,2% reconhecem presença; o relatório projeta cerca de 68,7 milhões de pessoas.
- Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Influência nas regras locais: p. 43-44: 34,9% dizem que os grupos influenciam muito e 26,5% moderadamente entre quem reconhece presença; somados, 61,4% desse subgrupo, ou cerca de 42,2 milhões de pessoas.
- Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates The 2020 Latinobarómetro Survey Instrument: A pesquisa pergunta primeiro por presença de crime organizado, grupos armados, narcogrupos ou gangues onde a pessoa vive. Entre quem responde sim, pergunta por atividades como controlar roubos/melhorar segurança e impor ordem. Os autores codificam essas atividades como governança criminal e alertam que o estimando é mais amplo que estar pessoalmente “sob” regras impostas pelo grupo.
- Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates Figure 1 — Estimated National Prevalence of Criminal Governance and Presence: Figura 1, p. 129 da edição de março de 2026: Brasil com cerca de 26% de governança criminal e 73% de presença criminal; os autores apresentam as medidas como distintas e discutem limitações de interpretação.
Fontes
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Em alta nas pesquisas, Cury critica polarização no horário eleitoral na TV Documento
Alegação original
Contribuição: Preserva a formulação veiculada no programa eleitoral e seu contexto imediato.
- Programa de Flávio Bolsonaro: Trecho em que o UOL registra a afirmação “Quase 70% dos brasileiros vivem sob o domínio das facções”.
Limites: A página consultada transcreve a propaganda, mas não disponibiliza a gravação integral do bloco; por isso, esta apuração não conferiu diretamente a entonação nem todo o material audiovisual.
Disponível
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Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança Documento
Evidência, Contexto
Contribuição: Fornece a evidência nacional contemporânea decisiva sobre presença percebida e sobre influência desses grupos nas decisões e regras de convivência local.
- Metodologia: p. 11 do relatório: 2.004 entrevistas, 137 municípios, população de 16 anos ou mais, campo em 9 e 10 de março de 2026 e margem de erro de 2 pontos percentuais.
- Pergunta sobre presença de crime organizado: p. 40-41: pergunta sobre grupos criminosos organizados envolvidos com tráfico de drogas ou milícias no bairro de moradia.
- Presença percebida: p. 40-41: 41,2% reconhecem presença; o relatório projeta cerca de 68,7 milhões de pessoas.
- Cautela na interpretação da presença: p. 43: o relatório diz que a percepção de presença pode abranger desde grupos locais menores até facções ou milícias com controle territorial armado e imposição de regras, portanto a intensidade não pode ser inferida apenas do “sim” à presença.
- Influência nas regras locais: p. 43-44: 34,9% dizem que os grupos influenciam muito e 26,5% moderadamente entre quem reconhece presença; somados, 61,4% desse subgrupo, ou cerca de 42,2 milhões de pessoas.
Limites: É pesquisa amostral de percepção, não mapeamento geoespacial direto de territórios controlados.; A população-alvo é de 16 anos ou mais.; A pergunta agrega facções, milícias e outros grupos criminosos organizados ligados ao tráfico; não isola facções.
Disponível
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Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates Documento
Evidência, Contexto
Contribuição: Oferece a principal evidência favorável a uma cifra próxima de 70% para presença criminal e, ao mesmo tempo, uma medida separada de governança criminal de cerca de 26%, permitindo testar diretamente a diferença entre presença e domínio.
- The 2020 Latinobarómetro Survey Instrument: A pesquisa pergunta primeiro por presença de crime organizado, grupos armados, narcogrupos ou gangues onde a pessoa vive. Entre quem responde sim, pergunta por atividades como controlar roubos/melhorar segurança e impor ordem. Os autores codificam essas atividades como governança criminal e alertam que o estimando é mais amplo que estar pessoalmente “sob” regras impostas pelo grupo.
- Figure 1 — Estimated National Prevalence of Criminal Governance and Presence: Figura 1, p. 129 da edição de março de 2026: Brasil com cerca de 26% de governança criminal e 73% de presença criminal; os autores apresentam as medidas como distintas e discutem limitações de interpretação.
Limites: Usa dados do Latinobarómetro de 2020, portanto é anterior à pesquisa brasileira de 2026.; Os autores classificam as estimativas como informativas, porém imprecisas, e discutem ambiguidades de mensuração.; A medida de presença pode ter sido elevada no Brasil por diferenças de redação do questionário; a própria medida de governança é descrita como “living with” e não prova submissão pessoal direta.
Disponível
Responsabilidade e transparência
Publicação responsável: Atlas da Mentira.
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