Atlas da Mentira · checagem verificável

Havia 33 milhões de pessoas passando fome quando Lula voltou à Presidência em 2023

A cifra de 33 milhões tem base real, mas não é possível confirmar que esse era o número quando Lula tomou posse em janeiro de 2023.

O II VIGISAN estimou 33,1 milhões de pessoas em domicílios com insegurança alimentar grave, indicador associado à fome, com coleta entre novembro de 2021 e abril de 2022. Era o dado nacional mais recente e amplamente usado no início de 2023, mas sua referência temporal é 2022. Sem uma medição equivalente para janeiro de 2023, o dado sustenta o quadro herdado em termos gerais, não um total exato naquele momento.

Qualificações importantes

O levantamento que originou os 33,1 milhões foi coletado entre novembro de 2021 e abril de 2022 e divulgado em junho de 2022. A diferença entre a data da coleta e a posse de janeiro de 2023 impede tratá-lo como contagem contemporânea exata.

“Passando fome”, nesse número, corresponde à população que vivia em domicílios classificados em insegurança alimentar grave pela EBIA. É uma medida de experiência de privação alimentar no domicílio, não a mesma coisa que outros indicadores internacionais de subalimentação ou insegurança alimentar.

A cifra era, ainda assim, uma referência plausível para descrever o quadro recebido pelo novo governo: em fevereiro de 2023, a Folha registrava o II VIGISAN como a pesquisa nacional mais recente sobre essa privação, e o próprio painel atual do Brasil Sem Fome identifica os 33 milhões como resultado do primeiro trimestre de 2022.

O que foi checado

Quando Lula voltou à Presidência em 2023, havia 33 milhões de pessoas passando fome no Brasil.

Forma
Paráfrase
Atribuição
Luiz Inácio Lula da Silva · Atribuição verificada
Função na época
presidente da República e candidato à reeleição
Data da declaração
02/08/2026
Contexto
Discurso na convenção nacional do PT que oficializou sua candidatura à reeleição.

Como a proposição foi normalizada: A frase vincula um número populacional a um momento concreto — o retorno de Lula ao governo em janeiro de 2023. A checagem preserva esse marco temporal. O número de 33,1 milhões é real, mas vem do II VIGISAN, cuja coleta ocorreu entre novembro de 2021 e abril de 2022; por isso ele não é tratado silenciosamente como uma medição feita na posse.

Quando eu voltei em 2023, tinha 33 milhões de pessoas passando fome.

Contexto original

O que Lula afirmou

Na convenção nacional do PT de 2 de agosto de 2026, Lula contrastou políticas de combate à fome com o governo anterior e afirmou que, quando voltou à Presidência em 2023, havia 33 milhões de pessoas passando fome. O número reproduz uma estimativa muito conhecida divulgada no ano anterior.

Explicação

De onde vêm os 33,1 milhões

O II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia, da Rede PENSSAN, estimou que 33,1 milhões de pessoas viviam em domicílios com insegurança alimentar grave. A própria divulgação do levantamento resumiu o resultado como 33,1 milhões de pessoas atingidas pela fome.

O ponto decisivo é o período. A coleta ocorreu entre novembro de 2021 e abril de 2022. Portanto, os 33,1 milhões são uma estimativa da situação observada naquele intervalo, e não de janeiro de 2023.

  • Olhe para a fome Período e amostra do II VIGISAN: trecho que informa coleta entre novembro de 2021 e abril de 2022 e amostra de 12.745 domicílios

Contexto e limites

Por que o número ainda era usado no início de 2023

Há uma defesa razoável para a formulação de Lula. Pouco depois da posse, o dado de 33,1 milhões ainda era tratado como a estimativa nacional mais recente disponível para a fome medida dessa forma. Em fevereiro de 2023, a Folha descreveu o II VIGISAN como a pesquisa nacional mais atual reconhecida por pesquisadores e autoridades que acompanhavam o tema.

O painel do Plano Brasil Sem Fome também usa hoje os 33 milhões como referência de 2022, especificando que o dado corresponde ao primeiro trimestre daquele ano. O mesmo painel distingue esse ponto da medição do IBGE no quarto trimestre de 2023. Essa separação reforça que o número serve como linha de base anterior ao novo governo, mas não resolve qual era o total exato no dia da posse.

Método

Por que a conclusão é inconclusiva no marco exato de 2023

A cifra de 33 milhões não foi inventada: ela reproduz, com arredondamento, o resultado do II VIGISAN. O problema é temporal. A pesquisa mediu a situação até abril de 2022, enquanto a frase atribui o número ao retorno de Lula em janeiro de 2023. Como não há, nas fontes examinadas, uma medição equivalente para aquele momento exato, não é possível afirmar nem refutar que 33 milhões fosse o total na posse. O dado é adequado para descrever a gravidade do quadro herdado de forma aproximada, mas não para fixar uma contagem contemporânea sem ressalva.

Fontes

  1. Veja íntegra do discurso de Lula na convenção que oficializou candidatura Documento

    UOL · 02/08/2026

    Alegação original

    Contribuição: Preserva a formulação, o número e o marco temporal usados por Lula.

    • Trecho sobre fome em 2023: passagem “Quando eu voltei em 2023, tinha 33 milhões de pessoas passando fome”

    Limites: É uma transcrição jornalística do discurso, não a gravação audiovisual original.

    Disponível

    Abrir fonte

  2. 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil Documento

    Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional — Rede PENSSAN · 08/06/2022

    Evidência

    Contribuição: É a fonte do número de 33,1 milhões associado à insegurança alimentar grave/fome.

    • Resultado nacional: trecho que informa 33,1 milhões de pessoas atingidas pela fome em 2022

    Limites: A página de divulgação resume o levantamento; o período detalhado de coleta é explicitado por materiais do mesmo projeto e de organizações parceiras.

    Disponível

    Abrir fonte

  3. Olhe para a fome Documento

    Oxfam Brasil · 08/06/2022

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Documenta o período de campo do levantamento que gerou a cifra de 33,1 milhões.

    • Período e amostra do II VIGISAN: trecho que informa coleta entre novembro de 2021 e abril de 2022 e amostra de 12.745 domicílios

    Limites: A Oxfam foi apoiadora do II VIGISAN; a fonte primária do resultado é a Rede PENSSAN.

    Disponível

    Abrir fonte

  4. Quantas pessoas passam fome no Brasil? Entenda os números Documento

    Folha de S.Paulo · 15/02/2023

    Contexto

    Contribuição: Mostra como a cifra era contextualizada imediatamente após a posse: dado anterior, mas ainda o levantamento nacional mais recente para essa medida.

    • 33,1 milhões e referência temporal: trechos que situam o dado entre o fim de 2021 e início de 2022 e o descrevem como a pesquisa nacional mais atual naquele momento

    Limites: É fonte jornalística secundária e não substitui a documentação do II VIGISAN.

    Disponível

    Abrir fonte

  5. Plano Brasil Sem Fome — Principais Indicadores Nacionais Base de dados

    Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome

    Contexto

    Contribuição: Confirma a referência temporal hoje adotada pelo governo para o dado de 33 milhões e separa o resultado de 2022 da medição do fim de 2023.

    • Série de insegurança alimentar grave pela EBIA: trechos que identificam 33 milhões no primeiro trimestre de 2022 e 8,5 milhões no quarto trimestre de 2023

    Limites: É um painel governamental atual que combina resultados de pesquisas distintas; não mede janeiro de 2023.

    Disponível

    Abrir fonte

Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

Metodologia e significado dos achados · Solicitar correção

Encontrou um erro?

Indique o ponto que precisa ser revisto e, se possível, a evidência que sustenta a solicitação. O envio fica privado até análise.

Aponte o trecho, dado ou conclusão que você acredita estar incorreto ou incompleto.

Se possível, inclua links, documentos ou referências que sustentem a solicitação.

Não será publicado. Podemos usá-lo apenas se precisarmos esclarecer esta solicitação.