Atlas da Mentira · checagem verificável

80% dos exames do SUS são normais; 20% apresentam alteração

Não é possível confirmar que 80% de todos os exames feitos no SUS tenham resultado normal e 20% apresentem alteração.

O número de 80% aparece em registros anteriores sobre exames de imagem e foi associado, em 2017, a um levantamento local do Corujão da Saúde de São Paulo que não foi confirmado pela prefeitura como estudo nacional. Dados de exames específicos do SUS podem mostrar proporções altas de resultados normais, mas variam por tipo de exame, população e finalidade e não sustentam a generalização para todo o sistema.

Qualificações importantes

A declaração não especifica período, tipo de exame, finalidade (rastreamento ou diagnóstico) nem o que considera “normal” e “alteração”. Essas diferenças mudam o percentual esperado.

Há subconjuntos do SUS em que a maioria dos exames é classificada como normal. Em mamografias de rastreamento feitas para o SUS em Goiânia em 2010, 86,24% foram classificadas como normais, mas 10,01% foram inconclusivas, 2,44% exigiam controle radiológico e 1,31% foram alteradas. Esse recorte não estima todos os exames do SUS.

A atribuição da fala de 2026 foi confirmada pela cobertura contemporânea do Canal MyNews; a gravação integral do debate não foi inspecionada diretamente nesta checagem.

O que foi checado

No debate presidencial de 26 de setembro, Wilson Grassi afirmou que 80% dos exames feitos no SUS dão resultado normal e 20% mostram alteração.

Forma
Paráfrase
Atribuição
Veterinário Wilson Grassi · Atribuição verificada
Função na época
candidato à Presidência da República
Vínculo na época
Democrata
Data da declaração
26/09/2026
Contexto
Debate presidencial promovido por 3 Irmãos, Rádio MyNews VIP FM e Kritikê, segundo bloco sobre saúde.

80% dos exames feitos no SUS dão normal 20% de alteração

Explicação

O que foi dito

No debate presidencial de 26 de setembro de 2026, Wilson Grassi afirmou que “80% dos exames feitos no SUS dão normal” e que 20% apresentam alteração, associando essa proporção ao tamanho das filas. A fala, conforme publicada pelo Canal MyNews, não delimitou quais exames, período ou critério de normalidade estavam sendo considerados.

Explicação

O antecedente do número de 80%

Um antecedente público do mesmo percentual apareceu em 2017, quando o então ministro da Saúde Ricardo Barros disse que 80% dos exames radiológicos ou de imagem tinham resultado normal. A Agência Câmara registrou a frase. Meses depois, em resposta a uma checagem da Lupa, Barros afirmou que o número vinha de resultados do programa Corujão da Saúde, da Prefeitura de São Paulo. A Lupa relatou que a prefeitura não soube confirmar a existência do estudo citado e que o Colégio Brasileiro de Radiologia disse desconhecer pesquisa nacional com esse dado.

Os balanços oficiais do Corujão mostram um recorte local e específico: a primeira fase concentrou-se em exames de imagem na cidade de São Paulo, como ultrassonografias, mamografias, tomografias, ecocardiografias, densitometrias e ressonâncias. O balanço municipal consultado informa volumes e tipos de exames, mas não apresenta um indicador de 80% de laudos normais.

Explicação

O que os dados permitem afirmar

Dados de um exame específico mostram por que a generalização exige cautela. Um estudo com 31.198 mamografias de rastreamento realizadas para o SUS em Goiânia em 2010 encontrou 86,24% de exames classificados como normais. Ao mesmo tempo, 10,01% foram inconclusivos, 2,44% exigiam controle radiológico e 1,31% foram classificados como alterados. O resultado é compatível com a possibilidade de altas proporções de normalidade em determinados programas de rastreamento, mas não mede o conjunto de exames do SUS.

A infraestrutura nacional também não transforma automaticamente todos os resultados em uma divisão simples entre “normal” e “alterado”. O modelo de Resultado de Exame Laboratorial da Rede Nacional de Dados em Saúde prevê resultado, interpretação quando aplicável, valores de referência e limitações técnicas. O Hospital das Forças Armadas, em orientação pública sobre exames laboratoriais, ressalta que valores de referência, isoladamente, não determinam a normalidade de um resultado para um paciente.

Contexto e limites

Conclusão e limites

As fontes consultadas não permitem reproduzir uma estimativa nacional de 80% de resultados normais e 20% de alterações para todos os exames realizados no SUS. Há evidência de percentuais semelhantes ou até maiores em recortes específicos, mas eles não são comparáveis a uma estatística de todo o sistema. Por isso, a proporção apresentada no debate fica sem comprovação no escopo em que foi formulada.

Fontes

  1. Embate ideológico e confronto de visões marcam o segundo bloco do debate Documento

    Canal MyNews · 26/09/2026

    Alegação original

    Contribuição: Preserva a atribuição, o contexto e a formulação pública da declaração checada.

    • Segundo bloco — saúde: Trecho que registra a fala de Wilson Grassi sobre 80% dos exames do SUS com resultado normal e 20% com alteração.

    Limites: Cobertura textual contemporânea; a gravação integral vinculada em YouTube não foi inspecionada diretamente nesta checagem.

    Disponível

    Abrir fonte

  2. Ministro defende gestão informatizada para melhorar uso de recursos na saúde Documento

    Agência Câmara de Notícias · 05/04/2017

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Documenta um antecedente público do percentual de 80% aplicado a exames radiológicos/de imagem, não a todos os exames do SUS.

    • Relato da audiência pública: Registra Ricardo Barros dizendo que 80% dos exames radiológicos pedidos tinham resultado normal.

    Limites: A matéria registra a declaração do então ministro, mas não apresenta a base estatística do percentual.

    Disponível

    Abrir fonte

  3. As polêmicas afirmações de Ricardo Barros, o ministro da Saúde Documento

    Agência Lupa · 06/10/2017 · Atualizado em 31/05/2024

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Rastreia a justificativa pública dada para o percentual de 80% e documenta que a alegada base era local, sem confirmação de estudo nacional.

    • Checagem da frase sobre 80% dos exames de imagem: Relata que Barros atribuiu o número ao Corujão da Saúde de São Paulo; a prefeitura não confirmou estudo e o CBR disse desconhecer pesquisa nacional correspondente.

    Limites: Fonte jornalística secundária; a nota original do Ministério e os contatos com prefeitura/CBR são descritos pela Lupa.

    Disponível

    Abrir fonte

  4. Corujão da Saúde zera fila para exames em 83 dias Documento

    Prefeitura de São Paulo · 03/04/2017 · Texto atualizado em abril de 2017 para ajuste e esclarecimento de estatísticas.

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Confirma o escopo local e centrado em exames de imagem do Corujão citado como origem do número de 80% em 2017.

    • Balanço da primeira fase: Informa volumes e composição por tipo de exame, com predominância de ultrassonografias, mamografias e outros exames de imagem, sem percentual de resultados normais.

    Limites: O balanço não publica classificação dos laudos entre normais e alterados.

    Disponível

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  5. Avaliação do desempenho dos centros de diagnóstico na classificação dos laudos mamográficos em rastreamento oportunista do Sistema Único de Saúde (SUS) Documento

    Radiologia Brasileira / SciELO · 2013 — Artigo publicado no volume 46, número 3, maio-junho de 2013.

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Mostra que uma proporção alta de exames normais pode ocorrer em um recorte específico do SUS, mas também evidencia categorias e escopo incompatíveis com uma generalização para todos os exames.

    • Resultados — conclusão diagnóstica: Dos exames de rastreamento, 86,24% foram normais, 10,01% inconclusivos, 2,44% necessitavam de controle radiológico e 1,31% foram alterados.

    Limites: Estudo ecológico com dados de 2010, restrito a mamografias de rastreamento em Goiânia; os autores apontam inconsistências de qualidade nos dados reportados ao SISMAMA.

    Disponível

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  6. Portaria GM/MS nº 8.276, de 29 de setembro de 2025 Documento

    Ministério da Saúde · 29/09/2025

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Demonstra que os resultados laboratoriais nacionais são estruturados por exame e podem exigir interpretação, valores de referência e limitações, em vez de uma categoria binária universal.

    • Arts. 2º e 3º — Modelo de Informação de Resultado de Exame Laboratorial: Define registro de resultado, interpretação quando aplicável, valores de referência, limitações técnicas e envio dos resultados laboratoriais à RNDS.

    Limites: A portaria define o modelo de informação e obrigação de envio; não fornece estatística agregada de normalidade dos exames.

    Disponível

    Abrir fonte

  7. Informações Gerais — Laboratório de Análises Clínicas Documento

    Hospital das Forças Armadas · 23/03/2016 · Página modificada em 25/03/2022.

    Contexto

    Contribuição: Qualifica o uso do termo “normal” em exames laboratoriais e mostra que a interpretação não se reduz necessariamente ao valor de referência.

    • Outras informações: Orienta que valores de referência não indicam, por si só, a normalidade do resultado de um paciente e que a interpretação deve considerar dados clínicos e outros exames.

    Limites: Orientação de um hospital federal, não uma mensuração nacional dos resultados do SUS.

    Disponível

    Abrir fonte

Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

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