Atlas da Mentira · checagem verificável

Brasil ocupa o quinto lugar mundial em feminicídios em 2026

Há uma base histórica real para a frase: em 2015, a própria ONU Mulheres Brasil disse que o país estava na 5ª posição em um “ranking de feminicídio”. Mas a comparação usava dados de 2013 sobre homicídios de mulheres em 83 países. Sem essa data e esse recorte, apresentar o 5º lugar como posição mundial do Brasil em 2026 transmite uma atualidade que os dados disponíveis não sustentam.

A divulgação da ONU Mulheres de novembro de 2015 empregou expressamente a expressão “5ª posição no ranking de feminicídio”, mas na mesma página explicou que o resultado vinha de uma taxa de 4,8 assassinatos de mulheres por 100 mil em 2013; outra divulgação do Mapa da Violência descreveu a métrica como homicídios de mulheres. Desde 2022, ONU Mulheres e UNODC adotam um marco estatístico específico para mortes de mulheres e meninas por motivação de gênero. O relatório global de 2025 ainda aponta lacunas importantes de dados e apresenta estimativas regionais, não uma classificação mundial contemporânea de países que confirme o Brasil em 5º.

Qualificações importantes

A expressão “ranking de feminicídio” não foi criada pela candidata. Em novembro de 2015, a ONU Mulheres Brasil usou essa formulação ao divulgar o Mapa da Violência e escreveu que o Brasil estava na 5ª posição.

A posição histórica usava dados de 2013: taxa de 4,8 assassinatos ou homicídios de mulheres por 100 mil, quinta maior entre 83 países comparados com dados da OMS. Portanto, o número não é um retrato de 2026.

O marco estatístico atual de ONU Mulheres e UNODC trata feminicídio/femicídio como mortes de mulheres e meninas relacionadas a gênero. A padronização foi criada justamente porque diferenças de definições e registros dificultavam comparações internacionais.

O relatório global de ONU Mulheres e UNODC divulgado em 2025 afirma que a disponibilidade de dados de feminicídio na maioria dos países continua sendo um desafio e apresenta estimativas por regiões. Esse material não confirma um ranking contemporâneo de países com o Brasil em 5º.

A ausência de confirmação para o ranking atual não reduz a gravidade do problema no país. O Ministério da Justiça registrou 848 vítimas de feminicídio entre janeiro e julho de 2026.

O que foi checado

No debate presidencial de 26 de setembro, Clariana Barão afirmou que o Brasil ocupa o quinto lugar no mundo em feminicídios.

Forma
Paráfrase
Atribuição
Clariana Barão · Atribuição verificada
Função na época
candidata à Presidência da República
Vínculo na época
Democracia Cristã (DC)
Data da declaração
26/09/2026
Contexto
Debate presidencial promovido por 3 Irmãos, Rádio MyNews VIP FM e Kritikê, quarto bloco sobre violência de gênero e representatividade.

Como a proposição foi normalizada: A fala preservada não esclarece a fonte, o ano nem se “feminicídios” significa o crime tipificado como tal, mortes por razão de gênero em uma definição estatística internacional ou todos os homicídios de mulheres.

o Brasil figurar em 5º lugar no mundo em feminicídios

Contexto original

O que foi dito

Na cobertura do quarto bloco do debate presidencial de 26 de setembro, o Canal MyNews registrou que Clariana Barão citou o Brasil como quinto colocado no mundo em feminicídios. A cobertura não informa fonte, ano ou recorte estatístico para a posição.

Explicação

O 5º lugar tem uma fonte histórica — e a ONU Mulheres usou a palavra feminicídio

Há uma defesa importante da formulação usada no debate. Em 18 de novembro de 2015, a ONU Mulheres Brasil divulgou o Mapa da Violência afirmando textualmente que o Brasil ocupava a “5ª posição no ranking de feminicídio”. Portanto, não é correto tratar o uso dessa expressão como uma troca de termos criada em 2026.

A mesma divulgação, porém, mostra o que estava por trás do ranking: taxa de 4,8 assassinatos de mulheres por 100 mil em 2013 e comparação internacional entre 83 países a partir de dados da OMS. Outra página da ONU Mulheres sobre o mesmo Mapa da Violência descreve a estatística como taxa de homicídios de mulheres e também registra o Brasil na quinta posição entre 83 países.

Assim, dizer que o Brasil ficou em 5º nesse levantamento histórico é sustentado, inclusive com precedente institucional para chamá-lo de ranking de feminicídio. O problema aparece quando o dado é citado sem o ano ou o universo da comparação, como se descrevesse a posição internacional do país no presente.

Contexto e limites

Os dados atuais não confirmam um 5º lugar mundial em 2026

A medição internacional evoluiu desde aquele levantamento. O marco estatístico desenvolvido por ONU Mulheres e UNODC para feminicídio/femicídio busca identificar mortes de mulheres e meninas relacionadas a gênero e foi criado para melhorar a comparabilidade entre países. O próprio documento observa que diferenças de conceitos, classificações e fontes historicamente tornaram esses dados escassos e não comparáveis internacionalmente.

No relatório global mais recente localizado antes do debate, divulgado em novembro de 2025, ONU Mulheres e UNODC estimaram feminicídios praticados por parceiros íntimos ou familiares por grandes regiões do mundo. A publicação afirmou que a disponibilidade de dados na maioria dos países continua sendo um desafio e que diferenças de cobertura alteram até as estimativas de um ano para outro. Ela não oferece uma classificação mundial contemporânea de países que confirme o Brasil em 5º.

A dificuldade também aparece nas comparações regionais. A CEPAL alerta que taxas nacionais de feminicídio ou femicídio não são necessariamente comparáveis entre países porque a identificação depende das tipificações legais e de mudanças nos métodos e nos processos de investigação. Nos dados de 2024 da América Latina e do Caribe, as maiores taxas reportadas foram de Honduras, Guatemala e República Dominicana; isso é um recorte regional e não substitui um ranking mundial harmonizado.

No Brasil, o Ministério da Justiça registrou 848 vítimas de feminicídio entre janeiro e julho de 2026. O dado mostra que a violência continua grave, mas é uma estatística nacional e não estabelece uma posição mundial.

Por isso, a afirmação preserva um núcleo histórico verdadeiro, mas deixa de fora uma qualificação essencial: o 5º lugar divulgado em 2015 correspondia a dados de 2013 e a um universo de 83 países. Em uma fala de 2026, apresentar essa posição sem data ou recorte transmite a impressão de um ranking mundial atual que as fontes contemporâneas não confirmam.

Método

Limitações da checagem

A gravação integral do debate não foi inspecionada; a formulação foi conferida pela cobertura contemporânea do Canal MyNews. A checagem não afirma que seja impossível construir qualquer comparação entre países. O ponto verificável é mais restrito: o conhecido 5º lugar remete a dados de 2013, enquanto as fontes atuais de ONU Mulheres, UNODC e CEPAL destacam limitações de comparabilidade e não fornecem suporte para apresentar o Brasil como quinto colocado mundial em 2026.

Fontes

  1. Segurança Pública e STF são temas de destaque em quarto bloco de debate Documento

    Canal MyNews · 26/09/2026

    Alegação original

    Contribuição: Preserva a atribuição, o contexto e a formulação resumida do ranking mencionado.

    • Quarto bloco — violência de gênero: A reportagem registra Clariana Barão citando o Brasil em 5º lugar no mundo em feminicídios.

    Limites: A cobertura não especifica a métrica, o ano nem a fonte estatística do ranking.; A gravação integral não foi inspecionada diretamente.

    Disponível

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  2. Em ação dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência, ONU projeta dados sobre feminicídio no Museu Nacional Documento

    ONU Mulheres Brasil · 18/11/2015

    Evidência, Contexto

    Contribuição: É a evidência central para a defesa histórica da terminologia e, ao mesmo tempo, fixa o ano e o universo do conhecido 5º lugar.

    • Formulação usada pela ONU Mulheres em 2015: A ONU Mulheres escreveu que o Brasil assumia a 5ª posição no 'ranking de feminicídio' ao divulgar o Mapa da Violência 2015.
    • Base estatística do 5º lugar: A mesma página informa taxa de 4,8 assassinatos por 100 mil mulheres em 2013 e quinta posição internacional entre 83 países segundo dados da OMS.

    Limites: A terminologia 'ranking de feminicídio' foi usada institucionalmente em 2015, mas a base comparativa descrita na própria página é de assassinatos de mulheres e se refere a dados de 2013.

    Disponível

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  3. Homicídio contra negras aumenta 54% em 10 anos, aponta Mapa da Violência 2015 Documento

    ONU Mulheres Brasil · 09/11/2015

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Esclarece a métrica subjacente, o ano, a taxa e o universo de 83 países do dado de 5º lugar.

    • Estatísticas internacionais do Mapa da Violência 2015: Brasil: 4,8 homicídios por 100 mil mulheres em 2013, quinta maior taxa em um grupo de 83 países segundo dados da OMS.

    Limites: O levantamento é histórico; a própria divulgação descreve a métrica internacional como homicídios de mulheres.

    Disponível

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  4. UN Women and UNODC launch a pioneering study on the statistical framework for femicide in Mongolia Documento

    UN Women · 08/04/2024

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Documenta a definição estatística contemporânea e a dificuldade de comparação internacional.

    • Definição estatística de feminicídio: UN Women defines femicide as an intentional killing with a gender-related motivation.
    • Lacunas de comparabilidade: UN Women states that estimating the precise number is challenging and that data gaps and the absence of a common definition and internationally comparable data contribute to the problem.
    • Marco estatístico internacional: The UN Statistical Commission endorsed in 2022 the UNODC/UN Women Statistical Framework for Measuring the Gender-related Killing of Women and Girls.

    Limites: A página descreve a aplicação do marco na Mongólia; é usada aqui para a definição e para as limitações gerais de dados explicitadas pela ONU Mulheres.

    Disponível

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  5. Statistical framework for measuring the gender-related killing of women and girls Documento

    UNODC e UN Women · 06/07/2022

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Explica por que um marco padronizado passou a ser necessário para comparações internacionais de feminicídio/femicídio.

    • Background — comparabilidade internacional: O marco registra que diferentes conceitos, definições e classificações complicam a coleta e podem gerar dados não comparáveis; também afirma que dados de mortes relacionadas a gênero permaneciam escassos e não comparáveis internacionalmente.

    Disponível

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  6. Every day, 137 women and girls are killed by intimate partners or family members Documento

    UN Women e UNODC · 24/11/2025

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Mostra como a fonte global contemporânea mede o fenômeno e documenta lacunas que impedem usar o dado de 2013 como ranking atual confirmado.

    • Estimativas por região: A divulgação apresenta taxas estimadas de feminicídio por parceiro íntimo/familiar por grandes regiões: África, Américas, Oceania, Ásia e Europa.
    • Limitações de dados: A ONU Mulheres afirma que dados de feminicídios fora do âmbito doméstico permanecem limitados e que diferenças de disponibilidade de dados entre países afetam as estimativas.

    Limites: As estimativas globais concentram-se especialmente em mortes cometidas por parceiros íntimos ou familiares e não equivalem a todas as definições jurídicas nacionais de feminicídio.

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  7. CEPAL: Al menos 19.254 feminicidios se han registrado en los últimos cinco años en América Latina y el Caribe Documento

    Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) · 24/11/2025

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Ilustra com dados recentes as limitações de comparação mesmo em um conjunto regional.

    • Limites de comparação: A CEPAL explica que os registros nacionais dependem de tipificações legais e processos de produção de dados, o que limita comparações estritas entre países.
    • Maiores taxas reportadas em 2024: Honduras 4,3 por 100 mil; Guatemala 1,9; República Dominicana 1,5; Puerto Rico, Cuba e Bolívia 1,4.

    Limites: Cobertura regional, não mundial.; Os registros seguem definições e processos nacionais.

    Disponível

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  8. Número de feminicídios cai no Brasil nos primeiros sete meses de 2026 Documento

    Ministério da Justiça e Segurança Pública · 21/08/2026

    Contexto

    Contribuição: Atualiza a dimensão nacional do problema sem atribuir ao dado brasileiro uma posição mundial.

    • Feminicídios de janeiro a julho de 2026: 848 vítimas de feminicídio entre janeiro e julho de 2026, ante 876 no mesmo período de 2025.

    Limites: Dado nacional parcial de 2026; não é uma comparação internacional.

    Disponível

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Publicação responsável: Atlas da Mentira.

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