Atlas da Mentira · checagem verificável

Estatais lucraram R$ 18 bilhões sob Bolsonaro e acumularam prejuízo de mais de R$ 35 bilhões sob Lula

Falso.

A série fiscal comparável dá cerca de R$ 17,46 bilhões de superávit primário às estatais federais em 2019-2022, valor próximo aos R$ 18 bilhões citados. Mas, até junho de 2026, o déficit acumulado no governo Lula era de aproximadamente R$ 20,3 bilhões, não superior a R$ 35 bilhões. Além disso, resultado primário não é lucro ou prejuízo contábil.

Qualificações importantes

O resultado primário é uma medida fiscal de caixa, não o lucro ou prejuízo contábil das empresas. Investimentos e aportes de capital podem alterar esse saldo sem equivaler ao desempenho empresarial apurado em demonstrações contábeis.

A série usada para tornar a comparação coerente não representa todas as estatais: o Banco Central exclui Petrobras e Eletrobras da abrangência histórica da NFSP. A fala não explicitou esse recorte.

Em valores corrigidos pelo IPCA até junho de 2026, análise do FGV IBRE encontrou superávit de R$ 23,8 bilhões em 2019-2022 e déficit de R$ 21,5 bilhões entre janeiro de 2023 e junho de 2026. A atualização monetária muda os montantes, mas não leva o déficit do governo Lula a mais de R$ 35 bilhões.

O que foi checado

As empresas estatais deram R$ 18 bilhões de lucro durante o governo Jair Bolsonaro e acumulavam mais de R$ 35 bilhões de prejuízo no atual governo Lula.

Forma
Paráfrase
Atribuição
Flávio Bolsonaro · Atribuição verificada
Função na época
candidato à Presidência
Data da declaração
16/08/2026
Contexto
Discurso de lançamento da campanha presidencial em Copacabana.

Como a proposição foi normalizada: A fala usa “lucro” e “prejuízo” sem indicar metodologia. A checagem testa a série fiscal de resultado primário das estatais federais que reproduz aproximadamente o valor de R$ 18 bilhões atribuído ao governo Bolsonaro, a interpretação quantitativa mais favorável ao enunciado.

Durante o nosso governo, as estatais deram R$ 18 bilhões de lucro. No atual governo Lula, as estatais já deram mais de R$ 35 bilhões de prejuízo.

Explicação

O que mostram os números comparáveis

A estatística fiscal que mais se aproxima dos números usados por Flávio Bolsonaro mostra superávit primário acumulado de cerca de R$ 17,46 bilhões para as estatais federais entre 2019 e 2022. No governo Lula, o saldo foi deficitário em R$ 656 milhões em 2023, R$ 6,73 bilhões em 2024 e R$ 5,13 bilhões em 2025; no primeiro semestre de 2026, o déficit foi de R$ 7,8 bilhões. A soma dá aproximadamente R$ 20,3 bilhões de déficit entre janeiro de 2023 e junho de 2026, último dado divulgado antes do discurso de 16 de agosto. Portanto, o déficit acumulado não passava de R$ 35 bilhões.

Estimar o déficit acumulado no governo Lula até junho de 2026.

EntradaValorCobertura
Resultado de 2023 -0.656 R$ bilhões
Resultado de 2024 -6.73 R$ bilhões
Resultado de 2025 -5.13 R$ bilhões
Resultado de janeiro a junho de 2026 -7.8 R$ bilhões

Operação: -0.656 + -6.73 + -5.13 + -7.8

Resultado: -20.316 R$ bilhões — Déficit acumulado aproximado entre janeiro de 2023 e junho de 2026.

Comparabilidade: Valores nominais do mesmo recorte fiscal de estatais federais, publicados com arredondamento.

Contexto original

De onde pode ter vindo o número de R$ 35 bilhões

Até maio de 2026, o déficit acumulado no governo Lula era reportado em R$ 18,48 bilhões. Comparado com o superávit de R$ 17,46 bilhões de 2019-2022, a deterioração entre os dois saldos é de cerca de R$ 35,94 bilhões. Esse valor se aproxima dos R$ 35 bilhões citados e é a defesa numérica mais favorável à fala. Mas não é o déficit do governo Lula: é a diferença entre um saldo positivo anterior e um saldo negativo posterior.

Comparar a magnitude dos saldos acumulados nos dois períodos.

EntradaValorCobertura
Superávit 2019-2022 17.46 R$ bilhões
Déficit jan/2023-mai/2026 -18.48 R$ bilhões

Operação: 17.46 - (-18.48)

Resultado: 35.94 R$ bilhões — Diferença entre o saldo positivo de 2019-2022 e o saldo negativo de jan/2023-mai/2026.

Comparabilidade: Mesma série fiscal e mesmo recorte de estatais.

O próprio contexto do discurso afasta a leitura de que Flávio falava apenas da variação entre os governos. Ele disse que as estatais tinham dado R$ 18 bilhões de lucro com Bolsonaro, atribuiu mais de R$ 35 bilhões de prejuízo ao governo Lula e, em seguida, somou os dois valores ao dizer que mais de R$ 50 bilhões haviam “sumido pelo ralo”.

Contexto e limites

Déficit primário não é lucro contábil

O Banco Central define resultado primário como o componente não financeiro do resultado fiscal e informa que a apuração é feita pelo critério de caixa, na metodologia “abaixo da linha”. Na série usada aqui, Petrobras e Eletrobras ficam fora. Por isso, chamar esse saldo fiscal de “lucro” ou “prejuízo” das estatais, sem qualificação, mistura conceitos diferentes.

A diferença importa porque aportes da União podem aparecer como superávit primário para a estatal e, quando esses recursos são gastos em investimentos, pressionar o resultado primário para baixo. O FGV IBRE calculou que, a preços de junho de 2026, houve R$ 26 bilhões de aportes federais em 2019-2022 e R$ 2,9 bilhões entre janeiro de 2023 e junho de 2026; sem esses aportes, o primeiro período passaria de superávit a déficit. Assim, esse indicador isolado não sustenta a conclusão de que dinheiro “sumiu” nem demonstra corrupção.

Método

Recorte temporal

A checagem considera as informações públicas disponíveis em 16 de agosto de 2026. O Banco Central havia divulgado em 31 de julho o resultado do primeiro semestre de 2026; dados de meses posteriores não entram na avaliação da afirmação.

Fontes

  1. Assista ao vídeo e leia o discurso de Flávio Bolsonaro em ato de Copacabana Documento

    Poder360 · 16/08/2026

    Alegação original

    Contribuição: Estabelece a formulação exata da comparação, o contexto em que os valores são somados e a atribuição a Flávio Bolsonaro.

    • Íntegra do discurso: trecho sobre lucro e prejuízo das estatais

    Limites: A publicação preserva o discurso, mas não apresenta a metodologia ou a fonte dos números citados pelo candidato.

    Disponível

    Abrir fonte

  2. NFSP sem desvalorização cambial - Fluxo mensal corrente - Resultado primário - Total - Empresas estatais federais Base de dados

    Banco Central do Brasil / Departamento Econômico

    Evidência

    Contribuição: Define a série fiscal oficial usada como referência e esclarece que resultado primário é uma medida fiscal, não lucro líquido contábil.

    • Conceito: definição de NFSP, critério de caixa e resultado primário
    • Conceito: abrangência da série e exclusões de Petrobras e Eletrobras
    • Informações do SGS: código 4646; periodicidade mensal; unidade milhões de reais

    Limites: A página de metadados define a série e sua abrangência; os valores usados na soma foram conferidos também em reportagens que reproduzem dados do BCB e do TCU.

    Disponível

    Abrir fonte

  3. Estatais federais acumulam déficit de R$ 18 bilhões no governo Lula Documento

    Tribuna do Paraná · 22/07/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Reproduz valores acumulados e anuais atribuídos à auditoria do TCU, permitindo comparar os dois períodos.

    • Comparação entre governos: R$ 18,48 bilhões de déficit entre jan/2023 e mai/2026 e R$ 17,46 bilhões de superávit em 2019-2022
    • Série anual: resultados anuais de 2019 a 2025 e acumulado até maio de 2026 atribuídos ao TCU

    Limites: É uma reportagem secundária que resume dados atribuídos ao TCU; a metodologia é conferida separadamente na fonte oficial do Banco Central.

    Disponível

    Abrir fonte

  4. Estatais federais têm déficit de R$ 7,8 bilhões no 1º semestre do ano Documento

    Metrópoles · 31/07/2026

    Evidência

    Contribuição: Traz o último resultado semestral do Banco Central publicado antes da declaração.

    • Resultado do primeiro semestre: déficit de R$ 7,8 bilhões das estatais federais em jan-jun/2026; 2025 em cerca de R$ 5,1 bilhões
    • Data e fonte: dados do Banco Central divulgados em 31/7/2026

    Limites: É uma reportagem secundária baseada no Boletim de Estatísticas Fiscais do Banco Central.

    Disponível

    Abrir fonte

  5. Prosseguindo o debate com Alexandre Manoel Documento

    FGV IBRE · 07/08/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Oferece verificação independente da ordem de grandeza dos saldos e explica por que resultado primário não equivale a lucro contábil.

    • Resultado primário das estatais: R$ 23,8 bilhões de superávit em 2019-2022 e R$ 21,5 bilhões de déficit entre jan/2023 e jun/2026, a preços de junho de 2026
    • Aportes e limites do indicador: efeito dos aportes de capital e insuficiência do resultado primário isolado para avaliar saúde financeira

    Limites: Os valores comparativos são corrigidos pelo IPCA até junho de 2026 e não são diretamente somáveis aos valores nominais da fala.

    Disponível

    Abrir fonte

Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

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