Atlas da Mentira · checagem verificável

Só a China tem capacidade industrial de separar terras raras

A China domina amplamente a separação e o refino de terras raras, mas não é o único país com capacidade industrial nessa etapa. Antes da fala de Ronaldo Caiado, a Malásia já produzia terras raras separadas em escala comercial e os Estados Unidos já produziam óxido separado de neodímio-praseodímio.

Dados do USGS identificam a Lynas Malaysia como o maior produtor de terras raras separadas fora da China em 2024. A IEA estimou que a China concentrava cerca de 91% da separação e do refino dos elementos de terras raras usados em ímãs naquele ano, com a Malásia em segundo lugar. Em 2025, a MP Materials produziu 2.599 toneladas de óxido de NdPr nos Estados Unidos. Em 19 de março de 2026, onze dias antes da declaração, a Lynas anunciou na Malásia a produção de samário separado, somado a disprósio e térbio já produzidos.

Qualificações importantes

O núcleo mais moderado da fala é bem sustentado: a China exerce domínio extraordinário sobre a etapa. Para os elementos magnéticos neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, a IEA estimou participação chinesa de cerca de 91% na separação e no refino globais em 2024. Portanto, 'quase monopólio' descreve a concentração muito melhor do que a afirmação absoluta de que nenhum outro país tem capacidade.

Capacidade fora da China é limitada e desigual. Uma instalação pode separar apenas certos elementos ou processar certos tipos de alimentação; a existência de produção na Malásia e nos Estados Unidos não significa que esses países reproduzam toda a escala, variedade de elementos, tecnologia ou cadeia industrial chinesa.

A principal planta citada na Malásia é operada pela empresa australiana Lynas e historicamente processa material vindo da Austrália. A checagem usa 'país com capacidade' no sentido geográfico de capacidade industrial instalada e operante, não de nacionalidade do controlador ou de autossuficiência mineral.

  • Malaysia Rare Earths — 2024 Report: Lynas Malaysia descrita como maior produtora de terras raras separadas fora da China; produção de 11.072 t de REO em 2024, incluindo 6.200 t de produtos Nd-Pr
  • Kuantan, Malaysia Solvent Extraction and Product Finishing: descrição da extração por solventes que separa grupos e elementos individuais e lista produtos separados de NdPr, Dy, Tb e Sm

A formulação da fala está preservada em transcrição com marcação de tempo e link para o vídeo original. A reprodução direta do vídeo original não esteve disponível durante esta apuração, por isso a redação da citação não foi certificada por escuta independente.

O que foi checado

Nenhum país além da China possui capacidade para realizar a separação industrial dos minerais de terras raras.

Forma
Paráfrase
Atribuição
Ronaldo Caiado · Atribuição verificada
Função na época
governador de Goiás
Data da declaração
30/03/2026
Contexto
Entrevista/debate preservado pelo Ceticismo.

Como a proposição foi normalizada: A fala preservada afirma que 'não tem nenhum país' com capacidade de desenvolver a separação e contrasta essa situação com o controle chinês. A checagem trata 'capacidade' como existência de operação industrial capaz de separar terras raras em produtos ou óxidos individualizados; não amplia a proposição para mineração, fabricação de metais, ligas ou ímãs, nem pressupõe domínio de toda a cadeia.

Não tem nenhum país que tenha a capacidade de desenvolver essa separação dos minérios

Contexto original

O que Caiado afirmou

Em 30 de março de 2026, ao falar sobre terras raras e planos para desenvolver essa cadeia em Goiás, Ronaldo Caiado disse que a China tinha o controle da separação e afirmou que nenhum país tinha capacidade para desenvolver essa etapa. Em seguida, disse que Goiás pretendia fazê-la em parceria com os governos americano e japonês. O ponto verificável é absoluto: se já existia capacidade industrial de separação fora da China naquela data, a afirmação de exclusividade é falsa.

Explicação

A Malásia já separava terras raras em escala industrial

O contraexemplo mais claro é a Malásia. O Serviço Geológico dos Estados Unidos registra que a Lynas Malaysia era, em 2024, o maior produtor de terras raras separadas fora da China. Naquele ano, a planta produziu 11.072 toneladas de óxidos de terras raras, incluindo 6.200 toneladas de produtos de neodímio-praseodímio. Esses números antecedem em mais de um ano a declaração de Caiado e mostram capacidade industrial efetiva, não apenas um projeto futuro.

  • Malaysia Rare Earths — 2024 Report: Lynas Malaysia descrita como maior produtora de terras raras separadas fora da China; produção de 11.072 t de REO em 2024, incluindo 6.200 t de produtos Nd-Pr

A evidência é ainda mais direta para terras raras pesadas. Em 19 de março de 2026, onze dias antes da fala de Caiado, a Lynas anunciou a primeira produção de óxido de samário em sua planta malaia e informou que esse era seu terceiro óxido pesado separado, depois de disprósio e térbio. Assim, mesmo uma interpretação mais favorável, limitada a terras raras pesadas, não torna verdadeira a ideia de que só a China possuía capacidade de separação.

A descrição técnica da planta mostra que não se trata apenas de mineração ou concentração. Na unidade de Gebeng, a extração por solventes separa progressivamente as terras raras em grupos e elementos individuais antes do acabamento dos produtos. A instalação lista entre seus produtos óxidos separados de NdPr, disprósio, térbio e samário.

  • Kuantan, Malaysia Solvent Extraction and Product Finishing: descrição da extração por solventes que separa grupos e elementos individuais e lista produtos separados de NdPr, Dy, Tb e Sm

Explicação

Os Estados Unidos também já produziam óxidos separados

Os Estados Unidos fornecem um segundo contraexemplo. Em resultado publicado em 26 de fevereiro de 2026, a MP Materials informou ter produzido 2.599 toneladas métricas de óxido de neodímio-praseodímio em 2025 na operação de Mountain Pass. A produção de NdPr separado não equivale a dominar todos os elementos de terras raras, mas basta para contradizer a afirmação de que nenhum país fora da China tinha capacidade de separação.

Contexto e limites

A China domina a cadeia, mas não é a única

A força da fala de Caiado está no diagnóstico de concentração, não na exclusividade. Em outubro de 2025, a Agência Internacional de Energia estimou que a China respondia por cerca de 91% da separação e do refino globais de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, com a Malásia em segundo lugar. A mesma análise registrou que havia poucas instalações industriais de separação e refino fora da China, localizadas na Malásia, nos Estados Unidos e na Estônia. É um mercado extremamente concentrado, mas não um monopólio absoluto.

Por isso, a afirmação é falsa. Há uma diferença material entre dizer que a China controla a maior parte da separação mundial — o que os dados sustentam — e dizer que nenhum outro país possui capacidade para realizá-la. Malásia e Estados Unidos já apresentavam produção industrial separada antes de 30 de março de 2026.

  • Malaysia Rare Earths — 2024 Report: Lynas Malaysia descrita como maior produtora de terras raras separadas fora da China; produção de 11.072 t de REO em 2024, incluindo 6.200 t de produtos Nd-Pr
  • MP Materials Reports Fourth Quarter and Full Year 2025 Results Full Year 2025 Highlights: produção recorde de 2.599 toneladas métricas de óxido de NdPr em 2025

Fontes

  1. O que Ronaldo Caiado disse sobre desenvolver capacidade de separação de terras raras em Goiás Gravação

    Ceticismo · 30/03/2026

    Alegação original

    Contribuição: Preserva a formulação atribuída a Caiado, o timecode e o contexto imediato sobre a separação e o controle chinês.

    • Fala de Ronaldo Caiado: 53:24

    Limites: Transcrição/classificação automatizada; a página liga ao vídeo público original. A reprodução direta do vídeo original não esteve disponível durante esta apuração, portanto a redação não foi certificada por escuta independente. A checagem não amplia automaticamente 'separação' para outras etapas industriais.

    Disponível

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  2. Malaysia Documento

    U.S. Geological Survey

    Evidência

    Contribuição: Fornece dados governamentais independentes que demonstram produção industrial de terras raras separadas na Malásia antes da declaração.

    • Rare Earths — 2024 Report: Lynas Malaysia descrita como maior produtora de terras raras separadas fora da China; produção de 11.072 t de REO em 2024, incluindo 6.200 t de produtos Nd-Pr

    Limites: A página atual reúne dados históricos do relatório de 2024; os números citados referem-se à produção naquele ano e não medem toda a capacidade global ou todos os elementos de terras raras.

    Disponível

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  3. With new export controls on critical minerals, supply concentration risks become reality Documento

    International Energy Agency · 23/10/2025

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Quantifica o domínio chinês e, ao mesmo tempo, identifica capacidade industrial existente fora da China.

    • The rare earth supply chain is among the most highly concentrated: China cerca de 91% da separação/refino de Nd, Pr, Dy e Tb em 2024; Malásia em segundo lugar
    • Efforts must now be sharply focused on diversification: poucas instalações industriais de separação/refino fora da China, em Malásia, Estados Unidos e Estônia

    Limites: Os percentuais e a composição geográfica citados referem-se às terras raras usadas em ímãs, especialmente Nd, Pr, Dy e Tb, e não a todos os 17 elementos de terras raras.

    Disponível

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  4. MP Materials Reports Fourth Quarter and Full Year 2025 Results Documento

    MP Materials · 26/02/2026

    Evidência

    Contribuição: Demonstra produção comercial de óxido separado de neodímio-praseodímio nos Estados Unidos antes da fala.

    • Full Year 2025 Highlights: produção recorde de 2.599 toneladas métricas de óxido de NdPr em 2025

    Limites: Divulgação corporativa de resultados; demonstra produção de NdPr e não capacidade para todos os elementos de terras raras.

    Disponível

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  5. Lynas Malaysia produces first Samarium oxide Documento

    Lynas Rare Earths Ltd · 19/03/2026

    Evidência

    Contribuição: Mostra que, onze dias antes da declaração, uma planta na Malásia já produzia comercialmente vários óxidos de terras raras pesadas separados.

    • ASX Announcement: primeira produção de óxido de samário na Lynas Malaysia; terceiro óxido pesado separado, ao lado de disprósio e térbio

    Limites: Anúncio corporativo da Lynas reproduzido por um serviço de informações de mercado; é evidência primária da produção declarada pela companhia, mas não uma auditoria independente de volume ou pureza.

    Disponível

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  6. Kuantan, Malaysia Documento

    Lynas Rare Earths

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Explica o processo industrial da unidade malaia e confirma que a etapa examinada é separação química, não apenas mineração ou concentração.

    • Solvent Extraction and Product Finishing: descrição da extração por solventes que separa grupos e elementos individuais e lista produtos separados de NdPr, Dy, Tb e Sm

    Limites: Página corporativa atual e sujeita a atualização; é usada para descrever o processo e os produtos, enquanto a existência prévia da capacidade é ancorada em fontes datadas.

    Disponível

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Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

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