Atlas da Mentira · checagem verificável

Tarifa da Sabesp está 15% abaixo da que existiria sem privatização

Não é possível confirmar de forma independente, com a documentação técnica pública localizada, que a tarifa de 2026 esteja exatamente 15% abaixo do que seria sem a privatização.

A Arsesp documenta tarifa de aplicação de R$ 6,7655/m³ para 2026, e o contrato projeta R$ 7,51/m³ para o cenário estatal. Mas o próprio modelo diz que essa projeção está em preços de fevereiro de 2024. O Governo de São Paulo divulga R$ 7,96/m³ como atualização pela inflação, enquanto a nota da Arsesp usa 6,1106% de IPCA entre junho de 2024 e outubro de 2025 para reajustar as tarifas do contrato. Sem uma regra ou memória de cálculo que explique como essas bases temporais são compatibilizadas, o denominador dos 15% permanece sem rastreabilidade suficiente.

Qualificações importantes

O Governo de São Paulo afirma expressamente que os R$ 7,51/m³ projetados para a Sabesp estatal equivalem a R$ 7,96/m³ após atualização pela inflação. A lacuna encontrada não demonstra que R$ 7,96 esteja errado; demonstra que a passagem até esse valor não pôde ser reproduzida com a documentação técnica pública localizada.

Mesmo que a atualização de R$ 7,96 seja tecnicamente confirmada, ela continuará sendo um contrafactual regulatório: estima a tarifa no cenário de continuidade do modelo estatal e não corresponde a um preço que chegou a ser cobrado nem prova com certeza o que ocorreria em uma história alternativa.

  • Apêndice I ao Anexo V — Modelo Regulatório Capítulo 8 — Modelo do Valor Tarifário de Referência: p. 8: define o modelo de referência, sua abordagem forward-looking e seu uso como limite máximo para a tarifa de aplicação.
  • Lei nº 17.853, de 8 de dezembro de 2023 Artigo 2º, inciso III e parágrafo único: Determina redução tarifária e estabelece comparação, nos anos seguintes, com o valor que seria apurado caso não fossem aplicadas as medidas da lei.

A comparação é entre tarifas médias/de referência. Ela não significa que cada categoria ou conta individual esteja exatamente 15% abaixo. Em exemplo oficial residencial, R$ 6,40/m³ é comparado a R$ 7,36/m³, diferença de cerca de 13%.

Os 15% do contrafactual também não significam queda de 15% de 2025 para 2026. A Arsesp aplicou reajuste de 6,1106% às tarifas de aplicação, com vigência em 1º de janeiro de 2026.

O que foi checado

A nossa tarifa hoje é 15% abaixo daquela que nós teríamos se a Sabesp não tivesse sido privatizada.

Forma
Declaração literal
Atribuição
Tarcísio de Freitas · Atribuição verificada
Função na época
governador de São Paulo e candidato à reeleição
Data da declaração
03/09/2026
Contexto
Agenda eleitoral nas obras do Rodoanel Norte, em Guarulhos.

A nossa tarifa hoje é 15% abaixo daquela que nós teríamos se a Sabesp não tivesse sido privatizada.

Contexto original

O que Tarcísio afirmou

Em agenda eleitoral em Guarulhos, Tarcísio de Freitas afirmou que a tarifa da Sabesp estava 15% abaixo do valor que haveria se a companhia não tivesse sido privatizada. A declaração foi registrada pelo UOL em 3 de setembro de 2026.

Explicação

O que os documentos técnicos estabelecem

O Apêndice I ao Anexo V do contrato criou uma curva de referência para representar a continuidade da prestação sob o modelo estatal. Para o ciclo de 2025 a 2028, a tabela projeta tarifa média de equilíbrio de R$ 7,51 por m³. O mesmo documento afirma, porém, que todos os valores financeiros do modelo têm data-base em fevereiro de 2024.

Para 2026, a nota técnica da Arsesp registra P0 de aplicação de R$ 6,7655 por m³ e P0 de equilíbrio de R$ 6,7673 por m³. A Deliberação 1.749/2025 aplicou às tarifas praticadas um reajuste de 6,1106%, correspondente ao IPCA entre a data-base de junho de 2024 e outubro de 2025.

Explicação

A passagem de R$ 7,51 para R$ 7,96 não está demonstrada

O Governo de São Paulo divulga que os R$ 7,51 por m³ do cenário estatal equivalem a R$ 7,96 por m³ após atualização pela inflação e, comparados com cerca de R$ 6,76, geram a diferença próxima de 15%. A comunicação oficial, contudo, não apresenta uma memória de cálculo específica para a curva estatal.

A dificuldade é temporal. O contrato identifica fevereiro de 2024 como data-base dos valores financeiros do modelo que contém os R$ 7,51. Já os 6,1106% documentados pela Arsesp para o reajuste de 2026 cobrem junho de 2024 a outubro de 2025. Nos documentos consultados, não foi localizada regra que rebaseie previamente a curva estatal de fevereiro para junho nem uma memória oficial que reconcilie as datas.

Contexto e limites

A cifra pode estar correta, mas não está reproduzível

A defesa mais forte da fala de Tarcísio é que o próprio Governo de São Paulo publicou a comparação de R$ 6,76 com R$ 7,96 e que esses valores produzem diferença próxima de 15%. Isso é evidência a favor da cifra. Ainda assim, sem a ponte técnica entre as duas datas-base, não é possível verificar de forma independente se R$ 7,96 é a atualização correta da curva contratual. A lacuna não permite concluir que os 15% sejam falsos; impede confirmar a derivação com a rastreabilidade necessária.

Há ainda uma limitação independente do problema de atualização: o valor maior é uma estimativa regulatória do que ocorreria caso continuasse o arranjo estatal anterior, não uma tarifa observada. O modelo prevê inclusive que revisões extraordinárias podem alterar a trajetória da referência.

Contexto e limites

Os 15% não se aplicam igualmente a toda conta

A tarifa média de referência não é igual a todas as tarifas cobradas. Em um exemplo divulgado pelo governo para a categoria residencial, R$ 6,40 por m³ é comparado a R$ 7,36 por m³ no cenário estatal, diferença de cerca de 13%. A estrutura possui categorias e faixas de consumo próprias.

Também é diferente comparar 2026 com um cenário sem privatização e comparar a tarifa nominal de 2026 com a de 2025. A Arsesp reajustou as tarifas de aplicação em 6,1106% a partir de janeiro de 2026.

Método

Por que o resultado é inconclusivo

Há documentação suficiente para identificar a tarifa de aplicação de 2026 e a curva contratual do cenário estatal, e há uma afirmação oficial de que a atualização desta curva chega a R$ 7,96 por m³. O que falta é a demonstração técnica que coloque os dois valores no mesmo referencial temporal. Como o percentual de 15% depende justamente desse denominador contrafactual, a checagem não consegue confirmar nem refutar a cifra com segurança.

Fontes

  1. 'Não tem como' tarifa da Sabesp ficar congelada, diz Tarcísio Documento

    UOL · 03/09/2026

    Alegação original

    Contribuição: Preserva a formulação exata, a autoria e o contexto eleitoral da afirmação.

    • O que aconteceu: Trecho em que Tarcísio afirma que a tarifa está 15% abaixo do que seria sem a privatização.

    Limites: A reportagem registra a fala, mas não é a fonte técnica da projeção tarifária usada para testar o percentual.

    Disponível

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  2. Apêndice I ao Anexo V — Modelo Regulatório Documento

    Governo do Estado de São Paulo / URAE-1 Sudeste

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Define o cenário contrafactual, registra a projeção de R$ 7,51/m³ e fixa fevereiro de 2024 como data-base dos valores financeiros do modelo.

    • Capítulo 8 — Modelo do Valor Tarifário de Referência: p. 8: define o modelo de referência, sua abordagem forward-looking e seu uso como limite máximo para a tarifa de aplicação.
    • Item 8.4 — data-base do modelo: p. 8: todos os valores financeiros do modelo têm como data-base fevereiro de 2024; quando necessário, os valores utilizados foram ajustados monetariamente pelo IPCA.
    • Item 8.7 — trajetória tarifária: p. 10: a tabela projeta tarifa média de equilíbrio de R$ 6,77/m³ para 2024 e R$ 7,51/m³ para o ciclo 2025-2028.
    • Itens 8.8 e 8.9 — revisões: p. 10: revisões extraordinárias devem ser consideradas na trajetória e a curva será atualizada ao final do segundo ciclo.

    Limites: É um modelo prospectivo regulatório, não observação do preço que efetivamente existiria em uma história alternativa.; O documento não explicita, nos itens localizados, a regra que transforma os R$ 7,51/m³ em R$ 7,96/m³ para 2026.

    Disponível

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  3. 1º Reajuste Tarifário da Sabesp — Tarifa de Aplicação — URAE-1 Sudeste Documento

    Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp)

    Evidência

    Contribuição: Fixa a tarifa de aplicação de 2026 e o período/base do índice de 6,1106%, permitindo identificar a incompatibilidade temporal não explicada com a curva estatal de fevereiro de 2024.

    • Atualização monetária do primeiro reajuste: p. 4-5: a Arsesp usa IPCA entre a data-base de junho de 2024 e outubro de 2025, totalizando 6,1106%.
    • Tarifa de Aplicação e P0: p. 6-7: registra P0 de aplicação de R$ 6,7655/m³ e P0 de equilíbrio de R$ 6,7673/m³.

    Limites: A nota documenta o reajuste das tarifas do contrato, mas não apresenta uma atualização específica da curva estatal de R$ 7,51/m³ para R$ 7,96/m³.

    Disponível

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  4. Deliberação Arsesp nº 1.749, de 1º de dezembro de 2025 Documento

    Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) · 01/12/2025

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Confirma formalmente o percentual e o intervalo temporal do IPCA aplicado às tarifas de aplicação.

    • Reajuste das tarifas de aplicação: Aplica reajuste de 6,1106%, referente ao IPCA da data-base de junho de 2024 a outubro de 2025, com vigência a partir de 1º de janeiro de 2026.

    Disponível

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  5. Lei nº 17.853, de 8 de dezembro de 2023 Documento

    Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo · 08/12/2023

    Contexto

    Contribuição: Mostra que a comparação com um cenário sem privatização foi incorporada à base legal da desestatização.

    • Artigo 2º, inciso III e parágrafo único: Determina redução tarifária e estabelece comparação, nos anos seguintes, com o valor que seria apurado caso não fossem aplicadas as medidas da lei.

    Limites: A lei define a lógica da comparação, mas não contém sozinha a memória de cálculo do valor contrafactual de 2026.

    Disponível

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  6. Tarifa de água da Sabesp fica 15% abaixo do que seria se a empresa continuasse estatal Documento

    Agência SP / Governo do Estado de São Paulo · 03/12/2025 08:25

    Evidência, Contexto

    Contribuição: É a fonte direta do valor contrafactual de R$ 7,96/m³ e da comparação pública de 15%, mas não expõe na página a ponte técnica para esse valor.

    • Comparação da tarifa de referência: O governo informa cerca de R$ 6,76/m³ para 2026 contra R$ 7,51/m³ projetados no cenário estatal, que seriam R$ 7,96/m³ após atualização pela inflação, resultando em aproximadamente 15%.
    • Exemplo residencial: Compara R$ 6,40/m³ na tarifa residencial com R$ 7,36/m³ no cenário sem privatização.

    Limites: É comunicação do governo responsável pela privatização e não publica, na página, a memória de cálculo que reconcilie a data-base de fevereiro de 2024 da curva estatal com o período inflacionário usado para chegar a R$ 7,96/m³.

    Disponível

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Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

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