Atlas da Mentira · checagem verificável

População em situação de rua dobrou no Brasil sob o terceiro governo Lula

Não é possível confirmar que a população real em situação de rua tenha dobrado no terceiro governo Lula. O número de pessoas identificadas nessa condição no CadÚnico passou de cerca de 198,7 mil em dezembro de 2022 para 392,4 mil em junho de 2026, alta de 97,4%. Essa é evidência relevante a favor da fala: o Ipea considera o CadÚnico um ótimo parâmetro para estimar a população real e documenta correlações historicamente altas com levantamentos municipais. Mas cadastro e população não são medidas idênticas. O próprio Ipea aponta subcobertura e identificação incompleta no cadastro, e alerta que mudanças de busca ativa podem alterar atualizações baseadas nessa série. Desde 2023, o governo ampliou a busca ativa de grupos vulneráveis, inclusive pessoas em situação de rua. Em 2026, o IBGE informava que ainda não fazia levantamento nacional regular dessa população e preparava o primeiro censo nacional específico para 2028. Há, portanto, forte evidência de crescimento, mas não uma medição nacional comparável que demonstre que o número real aumentou exatamente 100%.

A quase duplicação do CadÚnico não pode ser descartada como mero efeito administrativo: o Ipea mostra que a base é um forte indicador da população real e historicamente teve correlação muito alta com contagens e estimativas locais. Ao mesmo tempo, a cobertura do cadastro é incompleta e mudou no período com ações de busca ativa. Sem uma estimativa nacional de 2026 produzida com método comparável à de 2022, a evidência não permite separar com precisão quanto da alta cadastral corresponde a aumento real e quanto decorre de melhor identificação. Por isso, a magnitude exata da afirmação permanece sem resolução.

Qualificações importantes

Há evidência forte a favor da fala: o CadÚnico passou de cerca de 198,7 mil pessoas identificadas como em situação de rua em dezembro de 2022 para 392,4 mil em junho de 2026, alta publicada de 97,4%.

O Ipea considera o CadÚnico um ótimo parâmetro para estimar o número real de pessoas em situação de rua e documenta correlações muito altas com levantamentos e estimativas municipais, em torno de 0,94 a 0,96 em anos não atípicos. Isso torna a alta cadastral evidência relevante de aumento real, embora não determine sozinha sua magnitude.

  • Estimativa da população em situação de rua no Brasil (2012-2022) p. 7: o Ipea chama o CadÚnico de ótimo parâmetro para estimar o número real de pessoas em situação de rua, mas registra duas limitações de subcobertura: nem toda pessoa em situação de rua está cadastrada e nem toda pessoa em situação de rua cadastrada está identificada no cadastro nessa condição
  • Estimativa da população em situação de rua no Brasil (2012-2022) pp. 6-10: o estudo mostra correlações muito altas entre registros do CadÚnico e levantamentos/estimativas municipais, chegando a cerca de 0,94-0,96 em anos não atípicos; a correlação caiu em 2020, período de perturbação da coleta e do cadastramento

As limitações descritas pelo Ipea apontam para subcobertura, não para falsos positivos: nem toda pessoa em situação de rua está no CadÚnico e nem toda pessoa em situação de rua que está cadastrada aparece marcada nessa condição. Em julho de 2022, o estudo estimou que o total cadastrado era cerca de 31% inferior à população estimada.

  • Estimativa da população em situação de rua no Brasil (2012-2022) p. 7: o Ipea chama o CadÚnico de ótimo parâmetro para estimar o número real de pessoas em situação de rua, mas registra duas limitações de subcobertura: nem toda pessoa em situação de rua está cadastrada e nem toda pessoa em situação de rua cadastrada está identificada no cadastro nessa condição
  • Estimativa da população em situação de rua no Brasil (2012-2022) p. 13: o estudo estima que, em julho de 2022, o número registrado no CadÚnico era cerca de 31% inferior à população estimada e afirma que o cadastro não substitui a necessidade de novo estudo nacional de grande abrangência

A cobertura do cadastro mudou durante o período. A partir de 2023, o governo federal retomou e intensificou ações de busca ativa que incluíam pessoas em situação de rua. O Ipea alerta que picos de cadastramento por busca ativa podem distorcer para cima atualizações municipais baseadas diretamente na variação do CadÚnico, embora isso não signifique que o cadastro esteja cheio de pessoas falsamente classificadas.

  • Ações de fortalecimento do Cadastro Único em 2023 PROCAD-SUAS e busca ativa: Trecho que informa a retomada e intensificação da busca ativa e inclui explicitamente a população em situação de rua entre os grupos priorizados para inclusão e atualização cadastral
  • Estimativa da população em situação de rua no Brasil (2012-2022) p. 10: ao explicar a atualização mensal de estimativas pelo CadÚnico, o Ipea afirma que os registros tendem a subestimar a população real, mas alerta que uma busca ativa com muitos cadastros em um município pode produzir superestimação na atualização desse município

Em 2026, o IBGE dizia não realizar levantamentos nacionais regulares da população em situação de rua e preparava o primeiro censo nacional específico para 2028. Assim, não havia uma medição nacional padronizada e diretamente comparável a 2022 que confirmasse uma variação exata de 100%.

O que foi checado

Dobrou o número de pessoas em situação de rua durante o governo atual.

Forma
Declaração literal
Atribuição
Flávio Bolsonaro · Atribuição verificada
Função na época
candidato à Presidência
Data da declaração
16/08/2026
Contexto
Discurso no primeiro ato oficial da campanha presidencial, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Como a proposição foi normalizada: A frase se refere ao terceiro governo Lula e não explicita que a defesa mais favorável se apoia em registros do Cadastro Único.

dobrou o número de pessoas em situação de rua durante o governo atual

Explicação

O CadÚnico quase dobrou — e é um indicador importante da população real

No lançamento de sua campanha, Flávio Bolsonaro disse que “dobrou o número de pessoas em situação de rua durante o governo atual”. A transcrição integral publicada pelo Poder360 mostra que ele apresentou a afirmação como descrição da população no país, sem delimitar a métrica ao Cadastro Único.

A evidência mais forte a favor da fala é direta: o CadÚnico registrava cerca de 198,7 mil pessoas identificadas como em situação de rua em dezembro de 2022 e 392,4 mil em junho de 2026. A alta publicada entre esses dois pontos é de 97,4%, portanto muito próxima de uma duplicação.

Esse dado não é um indicador fraco. O Ipea descreve o CadÚnico como um ótimo parâmetro para estimar o número real de pessoas em situação de rua. Ao comparar a base com levantamentos e estimativas municipais, o estudo encontrou correlações historicamente muito altas, em torno de 0,94 a 0,96 em anos não atípicos. O próprio modelo nacional do instituto usa a evolução do cadastro para atualizar estimativas.

  • Estimativa da população em situação de rua no Brasil (2012-2022) p. 7: o Ipea chama o CadÚnico de ótimo parâmetro para estimar o número real de pessoas em situação de rua, mas registra duas limitações de subcobertura: nem toda pessoa em situação de rua está cadastrada e nem toda pessoa em situação de rua cadastrada está identificada no cadastro nessa condição
  • Estimativa da população em situação de rua no Brasil (2012-2022) pp. 6-10: o estudo mostra correlações muito altas entre registros do CadÚnico e levantamentos/estimativas municipais, chegando a cerca de 0,94-0,96 em anos não atípicos; a correlação caiu em 2020, período de perturbação da coleta e do cadastramento
  • Estimativa da população em situação de rua no Brasil (2012-2022) p. 10: ao explicar a atualização mensal de estimativas pelo CadÚnico, o Ipea afirma que os registros tendem a subestimar a população real, mas alerta que uma busca ativa com muitos cadastros em um município pode produzir superestimação na atualização desse município

Contexto original

A leitura mais favorável a Flávio Bolsonaro

Se a evolução do CadÚnico tiver continuado a acompanhar de perto a evolução da população real, como ocorreu historicamente, a fala pode estar próxima da realidade: o registro administrativo cresceu 97,4%. A alta cadastral, combinada com a forte correlação documentada pelo Ipea, é evidência substantiva de que a população real aumentou. O que os dados disponíveis não resolvem é se esse aumento também foi de aproximadamente 100%.

Contexto e limites

Cobertura do cadastro mudou e não havia contagem nacional comparável em 2026

O Ipea também deixa claro que CadÚnico e população real não são a mesma medida. As duas limitações descritas pelo estudo apontam para subcobertura: nem toda pessoa em situação de rua está cadastrada e nem toda pessoa em situação de rua que está no cadastro aparece identificada nessa condição. Em julho de 2022, o estudo estimou que o número registrado era cerca de 31% inferior à população estimada. Para 2022, o modelo nacional chegou a 281.472 pessoas, valor que não deve ser misturado com o total cadastral de 2026 para produzir uma taxa de crescimento.

A cobertura tampouco ficou estática. A partir de 2023, o governo federal retomou e intensificou ações de busca ativa de grupos vulneráveis, incluindo explicitamente pessoas em situação de rua. Ao descrever seu método de atualização, o Ipea alerta que uma busca ativa com muitos novos cadastros pode gerar superestimação da atualização de um município baseada na variação cadastral. Esse alerta não significa que o cadastro contenha falsos positivos; significa que uma mudança na intensidade de cadastramento pode quebrar temporariamente a relação histórica entre variação do cadastro e variação da população real.

  • Ações de fortalecimento do Cadastro Único em 2023 PROCAD-SUAS e busca ativa: Trecho que informa a retomada e intensificação da busca ativa e inclui explicitamente a população em situação de rua entre os grupos priorizados para inclusão e atualização cadastral
  • Estimativa da população em situação de rua no Brasil (2012-2022) p. 10: ao explicar a atualização mensal de estimativas pelo CadÚnico, o Ipea afirma que os registros tendem a subestimar a população real, mas alerta que uma busca ativa com muitos cadastros em um município pode produzir superestimação na atualização desse município

Em maio de 2026, o IBGE informou que não realizava levantamentos nacionais regulares da população em situação de rua e que números disponíveis costumavam vir de registros administrativos ou estudos específicos. O instituto preparava o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua para 2028. Portanto, na data da fala não havia uma nova medição nacional padronizada e diretamente comparável à estimativa de 2022 que permitisse confirmar uma duplicação exata da população real.

Método

Como a checagem separou as medidas

A checagem tratou separadamente a série administrativa e a estimativa da população real. A alta de 97,4% compara dois pontos do CadÚnico. A estimativa de 281.472 pessoas em 2022 serve para mostrar a subcobertura existente na linha de base, não para ser comparada diretamente com o cadastro de 2026. Sem uma estimativa nacional posterior produzida com método comparável, a taxa exata de crescimento da população real permanece indeterminada.

Fontes

  1. Em pontapé da campanha, Flávio e Lula cometem erros sobre desempenho de gestões passadas Documento

    Agência Lupa · 17/08/2026

    Contexto, Evidência

    Contribuição: Corrobora a alegação e registra dados contemporâneos consultados pela Lupa.

    • Fala de Flávio sobre população em situação de rua: Trecho do discurso de 16 de agosto e checagem correspondente

    Limites: É uma fonte jornalística secundária para a gravação do discurso e para os dados administrativos citados.; Seu cálculo de cerca de 40% compara a estimativa modelada do Ipea para 2022 com um total cadastral posterior, medidas mantidas separadas nesta checagem.

    Disponível

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  2. Assista ao vídeo e leia o discurso de Flávio Bolsonaro em ato de Copacabana Documento

    Poder360 · 16/08/2026

    Alegação original, Contexto

    Contribuição: Estabelece a formulação literal, autoria, data e contexto imediato da alegação.

    • Íntegra do discurso — trecho sobre pessoas em situação de rua: Transcrição integral do trecho em que Flávio afirma que dobrou o número de pessoas em situação de rua; a página incorpora o vídeo integral de 34min20s

    Limites: O vídeo incorporado não pôde ser reproduzido nesta execução por limitação de acesso; a redação foi conferida na transcrição integral e corroborada pela Agência Lupa.

    Disponível

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  3. População de rua no Brasil dobra após três anos e meio de Lula Documento

    Gazeta do Povo · 05/07/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Documenta a quase duplicação do número de pessoas identificadas no CadÚnico como em situação de rua.

    • Série do CadÚnico entre dezembro de 2022 e junho de 2026: Registra 198,7 mil pessoas marcadas como em situação de rua em dezembro de 2022 e 392,4 mil em junho de 2026, alta publicada como 97,4%

    Limites: É fonte jornalística secundária para números extraídos do CadÚnico, não o painel oficial.; O título usa 'população' de forma ampla, embora o texto especifique que se trata da população registrada no CadÚnico.

    Disponível

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  4. Estimativa da população em situação de rua no Brasil (2012-2022) Documento

    Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) · 2022

    Evidência

    Contribuição: Mostra ao mesmo tempo que o CadÚnico é um forte indicador da população real e que não equivale a uma contagem completa; explicita subcobertura, alta correlação histórica e a sensibilidade de atualizações baseadas no cadastro a mudanças de busca ativa.

    • p. 7: o Ipea chama o CadÚnico de ótimo parâmetro para estimar o número real de pessoas em situação de rua, mas registra duas limitações de subcobertura: nem toda pessoa em situação de rua está cadastrada e nem toda pessoa em situação de rua cadastrada está identificada no cadastro nessa condição
    • pp. 6-10: o estudo mostra correlações muito altas entre registros do CadÚnico e levantamentos/estimativas municipais, chegando a cerca de 0,94-0,96 em anos não atípicos; a correlação caiu em 2020, período de perturbação da coleta e do cadastramento
    • p. 10: ao explicar a atualização mensal de estimativas pelo CadÚnico, o Ipea afirma que os registros tendem a subestimar a população real, mas alerta que uma busca ativa com muitos cadastros em um município pode produzir superestimação na atualização desse município
    • p. 11: estimativa nacional de 281.472 pessoas em situação de rua no Brasil em 2022
    • p. 13: o estudo estima que, em julho de 2022, o número registrado no CadÚnico era cerca de 31% inferior à população estimada e afirma que o cadastro não substitui a necessidade de novo estudo nacional de grande abrangência

    Limites: A estimativa termina em 2022 e não fornece um valor nacional diretamente comparável para 2026.; O alerta sobre superestimação por busca ativa se refere ao uso da variação cadastral para atualizar estimativas municipais; não é evidência de que pessoas sem situação de rua tenham sido falsamente classificadas no CadÚnico.

    Disponível

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  5. Ações de fortalecimento do Cadastro Único em 2023 Documento

    Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Estabelece que a cobertura do CadÚnico foi ativamente ampliada a partir de 2023 para alcançar grupos vulneráveis, incluindo pessoas em situação de rua.

    • PROCAD-SUAS e busca ativa: Trecho que informa a retomada e intensificação da busca ativa e inclui explicitamente a população em situação de rua entre os grupos priorizados para inclusão e atualização cadastral

    Limites: É comunicação oficial do governo responsável pela política e não quantifica quanto da alta cadastral decorre da busca ativa versus mudança na população real.

    Disponível

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  6. É falso que o IBGE tenha divulgado pesquisa sobre cidades com maiores populações em situação de rua Documento

    Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) · 25/05/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Confirma que, em 2026, o Brasil ainda não dispunha de um levantamento nacional regular e padronizado que pudesse medir diretamente a variação da população real desde 2022.

    • Ausência de levantamento nacional regular: o IBGE informa que não realiza levantamentos regulares da população em situação de rua e que números em circulação costumam vir de registros administrativos, como o CadÚnico, ou de estudos específicos
    • Primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua: o IBGE informa a preparação do primeiro levantamento nacional padronizado sobre essa população, previsto para julho de 2028, com primeiros resultados previstos para dezembro de 2028

    Limites: A nota esclarece a inexistência de uma contagem nacional regular comparável, mas não estima por si só o tamanho da população em 2026.

    Disponível

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Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

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