Atlas da Mentira · checagem verificável

28 milhões de apostadores nos “últimos 12 meses” e 10,9 milhões em risco refletiriam o cenário recente das bets on-line

Enganosa no contexto em que foi apresentada. Os números de cerca de 28 milhões de apostadores e 10,9 milhões com algum risco constam de pesquisa da Unifesp, mas não medem exclusivamente bets online nem os 12 meses anteriores à audiência do STF em novembro de 2026.

O LENAD III ouviu pessoas com 14 anos ou mais em 2023 sobre apostas no ano anterior, incluindo loterias, jogo do bicho e bets. Estimou mais de 28 milhões em quaisquer apostas, mas apenas pouco mais de 9 milhões que usaram bets (5,6% da população estudada). Os 10,9 milhões em risco abrangem baixo, moderado ou elevado risco em todos os jogos; sinais compatíveis com transtorno grave são estimados em cerca de 1,4 milhão.

Qualificações importantes

O comunicado Agência Gov disse '28 milhões apostaram nos últimos 12 meses', sem declarar literalmente que os 28 milhões eram todos usuários de bets. A impressão de número atual de apostas on-line deriva do enquadramento da audiência e da omissão do ano-base, reforçada por reportagem que tratou os 12 meses como anteriores à proibição.

A pesquisa foi realizada em 2023 e cada entrevistado respondeu sobre os doze meses anteriores à entrevista. Não é estimativa direta da população que apostou entre 2025 e 2026, antes ou depois da proibição das bets.

A estimativa de 28 milhões refere-se a qualquer modalidade de aposta entre brasileiros de 14 anos ou mais; as bets esportivas on-line foram relatadas por 5,6% dessa população, pouco mais de 9 milhões. Loterias e outros jogos compõem o universo maior.

Os 10,9 milhões se encontram em algum grau de risco pela escala PGSI, que inclui risco baixo e moderado. Não são 10,9 milhões de diagnósticos de dependência: a estimativa com escores compatíveis com provável transtorno do jogo é de aproximadamente 1,4 milhão, sem diagnóstico individual confirmado.

Os valores são projeções estatísticas ponderadas sobre uma amostra, com intervalos de confiança, e não contagens administrativas de CPFs ou usuários únicos de plataformas; não se somam percentuais de modalidades sobrepostas.

O que foi checado

Na audiência do STF sobre a proibição das bets em novembro de 2026, a apresentação de que 28 milhões de brasileiros apostaram 'nos últimos 12 meses' e 10,9 milhões tiveram comportamento de risco transmitiu a ideia de um retrato recente das apostas on-line no Brasil.

Forma
Implícita
Atribuição
Alexandre Padilha · Atribuição verificada
Função na época
Ministro da Saúde
Data da declaração
03/11/2026
Contexto
Apresentação de dados na audiência pública do STF sobre a proibição das bets

Como a proposição foi normalizada: A Agência Gov não afirma literalmente que os 28 milhões eram exclusivamente apostadores de bets, mas inseriu a estimativa sem ano-base no contexto de apostas on-line em 2026. A Agência Brasil interpretou '12 meses' como período anterior à proibição em 2026. Trata-se de implicação contextual relevante; no estudo original a janela de 12 meses antecede entrevistas de 2023 e cobre todas as modalidades, inclusive loterias. Padrão de risco não equivale a transtorno clínico.

Contexto original

O que foi divulgado na audiência

Na audiência pública do Supremo Tribunal Federal de 3 de novembro de 2026 sobre a proibição de apostas on-line, a Agência Gov informou, como dados apresentados pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que 28 milhões de brasileiros tinham apostado nos 'últimos 12 meses' e 10,9 milhões o haviam feito de modo arriscado. A matéria não disse expressamente que todo esse conjunto era de apostadores exclusivamente on-line, mas tampouco identificou a coleta de 2023 ou a inclusão de loterias e outros jogos. Outra reportagem do dia, da Agência Brasil, situou os 12 meses como anteriores à proibição das bets, iniciada em 2026. Isso dá ao leitor a impressão de retrato recente das apostas digitais, embora a fonte da estatística seja mais antiga e ampla.

Explicação

A pesquisa original mede outra janela e outro universo

O Caderno Temático do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), registra entrevistas feitas em 2023 e perguntas sobre o ano anterior a cada entrevista. O módulo sobre apostas envolveu 4.860 pessoas de 14 anos ou mais e utilizou amostragem populacional com estimativas ponderadas. A pesquisa concluiu que 17,6% dos brasileiros nessa faixa etária, o equivalente aproximado a 28 milhões, haviam apostado em alguma modalidade nos doze meses anteriores. O universo não é o de quem apostou em 2025 ou 2026.

Apenas 5,6% da população com 14 anos ou mais, estimados em pouco mais de 9 milhões de pessoas, relataram usar sites de apostas esportivas, as bets. Entre as pessoas que apostaram, 71,3% haviam usado loterias e 32,1% sites de bets; uma mesma pessoa pode ter praticado mais de uma modalidade. Assim, não é correto transferir os 28 milhões de apostadores em geral para a categoria específica das plataformas on-line.

A estimativa de 10,9 milhões, ou 7,3% da população de 14 anos ou mais, resulta da escala Problem Gambling Severity Index (PGSI) aplicada a todos os tipos de apostas. Ela reúne apostadores de risco baixo, moderado e elevado ou problemático. No grupo que apostou no último ano, a fração com algum grau de risco foi de 38,6%. O estudo estimou em aproximadamente 1,4 milhão (0,8% da população na faixa) as pessoas com pontuação compatível com provável transtorno do jogo. Trata-se de classificação por questionário, não de diagnóstico clínico individual.

Contexto e limites

O que é verdadeiro e o que distorce a percepção

A interpretação mais favorável à exposição é que o ministro usou corretamente os números disponíveis do levantamento nacional para mostrar a magnitude dos problemas relacionados a apostas, e não pretendeu afirmar que todos os apostadores usavam bets. A cifra de 28 milhões e a de 10,9 milhões estão no estudo, e o próprio Ministério da Saúde havia informado em setembro de 2026 que eram dados de 2023. O problema material é que, no registro de novembro, a omissão do marco temporal e a associação imediata ao debate sobre bets podem ser entendidas como prevalência atual do mercado digital, o que os dados não demonstram.

A pesquisa original é consistente com uma preocupação de saúde pública: estima milhões de pessoas em algum nível de risco e maior associação do jogo on-line a danos. Entretanto, não mede os efeitos de uma regulamentação posterior, não isola no número 10,9 milhões os usuários de bets, e não fornece contagem atualizada de 2026. As cifras são estimativas sujeitas a incerteza amostral, e o risco PGSI não equivale automaticamente a dependência diagnosticada.

Método

Método da verificação

Foram comparadas as duas matérias contemporâneas da audiência com o caderno oficial LENAD III da Unifesp, que explicita perguntas, modalidades, ano de coleta e resultados do PGSI. Consultaram-se também a comunicação do Ministério da Saúde que já situava os dados em 2023 e a cobertura científica da Revista Pesquisa FAPESP. O resultado 'enganosa' não nega os números históricos; identifica a impressão equivocada de que são dados atuais e específicos das bets on-line. Não houve acesso ao vídeo integral da fala de Padilha, portanto a análise se refere à comunicação preservada nos textos publicados.

Fontes

  1. Em audiência no STF, Governo Federal defende proibição de jogos de aposta online Documento

    Agência Gov / Secretaria de Comunicação Social · 03/11/2026

    Alegação original

    Contribuição: Fonte oficial documenta a apresentação na audiência e o enquadramento no debate de bets em 2026, sem delimitar modalidade e ano-base no parágrafo dos números.

    • Seção DADOS: 28 milhões de brasileiros apostaram 'nos últimos 12 meses', 10,9 milhões fizeram isso de forma arriscada, 1,4 milhão têm sinais de transtorno; sem data da pesquisa.

    Limites: Paráfrase de dados atribuídos ao ministro, sem slides ou transcrição integral; texto fala genericamente em 'apostaram' e não diz literalmente 28 milhões exclusivamente em bets online.

    Disponível

    Abrir fonte

  2. Padilha defende proibição das bets e cita impacto no SUS Documento

    Agência Brasil / EBC · 03/11/2026

    Alegação original, Contexto

    Contribuição: Reprodução jornalística demonstra como uma fonte contemporânea vinculou a janela da pesquisa à proibição em setembro de 2026, diferentemente da coleta original de 2023.

    • Seção Dados: 28 milhões fizeram apostas nos 12 meses anteriores à proibição; cerca de 11 milhões com padrão de risco ou comportamento problemático.

    Limites: Interpretação do tempo feita pela reportagem, não data fornecida pelos pesquisadores.; Não discrimina jogos presenciais, loterias e apostas esportivas online.

    Disponível

    Abrir fonte

  3. Caderno Temático LENAD III: Jogos de aposta na população brasileira — Resultados 2023 Documento

    Universidade Federal de São Paulo, Departamento de Psiquiatria / UNIAD · 2025

    Evidência

    Contribuição: Fonte primária apresenta universo, calendário de coleta, janela de referência, porcentagem de apostas online e distinção da classificação PGSI. Refuta a equivalência 28 milhões = bets online e a leitura do recorte como 2026.

    • Página 32, seção 4.2: modalidades de apostas: 17,6% da população com 14 anos ou mais apostou no período antes da entrevista, estimados 28 milhões; apenas 5,6%, mais de 9 milhões, referiram bets; 71,3% dos apostadores referem loterias.
    • Seção 4.2.2: Estratificação por faixa etária: Coleta feita em 2023; últimos 12 meses antes das entrevistas, anteriores à regulamentação pela Lei 14.790/2023.
    • Páginas 39–41, seção 4.3 e tabelas de PGSI: 7,3% da população >=14 anos (10,9 milhões) em baixo, moderado ou alto risco em qualquer modalidade; 0,8% (1,4 milhão) provável transtorno; 38,6% dos que apostaram no último ano em algum risco.
    • Páginas 50–51, síntese dos resultados: 17,6% apostaram no último ano, 5,6% em bets, 7,3% dos brasileiros 14+ com grau de risco e 0,8% com sinais compatíveis de transtorno.

    Limites: Inquérito domiciliar por amostragem com autodeclaração; prevalências são estimativas ponderadas com intervalos de confiança, não contagens censitárias.; Amostra do módulo de jogo incluiu 4.860 entrevistados com 14 anos ou mais em 2023; não representa a situação de 2026.; Um participante pode relatar mais de uma modalidade de jogo, não se somam as categorias.

    Disponível

    Abrir fonte

  4. Quase 11 milhões de brasileiros apostam de modo a pôr em risco a saúde e as finanças Documento

    Revista Pesquisa FAPESP · 07/04/2025

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Cobertura independente que entrevistou pesquisadores do LENAD e esclarece escopo estatístico e a diferença entre risco PGSI e diagnóstico clínico.

    • Parágrafos iniciais e distribuição por modalidades: Reportagem sobre os resultados da Unifesp, distinguindo 28 milhões em qualquer jogo, loterias predominantes, 32,1% entre apostadores em bets, 10,9 milhões em risco e 1,4 milhão com transtorno provável.

    Limites: Retrata a mesma pesquisa Unifesp e não constitui amostra independente ou medição em 2026.; Publicado originalmente em 2025 com enunciados presentistas: ano de coleta da evidência prevalece.

    Disponível

    Abrir fonte

  5. Presidente Lula assina Medida Provisória que proíbe as bets no Brasil Documento

    Ministério da Saúde · 09/2026

    Evidência, Contexto

    Contribuição: Documento institucional anterior à audiência explicita corretamente o ano de 2023, demonstrando que a informação do período histórico estava disponível e não é medição nova.

    • Dados de risco na divulgação da MP: O próprio ministério informou que os 28 milhões e 10,9 milhões decorriam de apostas nos 12 meses anteriores à pesquisa de 2023.

    Limites: Nota institucional que não substitui o estudo de origem; não apresenta detalhes das amostras e modalidades.

    Disponível

    Abrir fonte

Responsabilidade e transparência

Publicação responsável: Atlas da Mentira.

Metodologia e significado dos achados · Solicitar correção

Encontrou um erro?

Indique o ponto que precisa ser revisto e, se possível, a evidência que sustenta a solicitação. O envio fica privado até análise.

Aponte o trecho, dado ou conclusão que você acredita estar incorreto ou incompleto.

Se possível, inclua links, documentos ou referências que sustentem a solicitação.

Não será publicado. Podemos usá-lo apenas se precisarmos esclarecer esta solicitação.